Presidente da Convenção Batista Reformada Diz que Pregar "Jesus Te Ama" a Todos é Incorreto
Declaração feita em podcast reacendeu a velha disputa sobre a extensão do amor de Deus e da expiação. O incômodo apareceu inclusive dentro do meio reformado.
BOLETIM DA MESA
Wender Gabriel
9/5/20262 min read


Foto Instagram: oficialeuacreditopodcast
O que aconteceu
O pastor Valter Reggiani, presidente da Convenção Batista Reformada do Brasil, gerou controvérsia ao afirmar, durante participação em podcast, que dizer "Jesus te ama" indistintamente a todas as pessoas seria uma pregação incorreta. Segundo o teor divulgado da fala, Reggiani sustentou que Jesus ama as suas ovelhas, que o evangelho é exclusivista e que, se Deus amasse a todos e Cristo tivesse morrido por todos, todos seriam salvos. A declaração circulou em páginas de notícias do meio evangélico e provocou forte repercussão nas redes.
Contexto
Reggiani é advogado e pastor da Igreja Batista Reformada de São Paulo. Preside a Convenção Batista Reformada do Brasil, organizada em 31 de outubro de 2017, data em que se completavam quinhentos anos da Reforma Protestante. A CBRB subscreve a Confissão de Fé Batista de 1689 e reúne igrejas batistas de convicção calvinista.
A afirmação não é uma novidade doutrinária. Ela expressa a doutrina reformada da expiação definida, terceira letra do acróstico TULIP, segundo a qual a morte de Cristo foi eficaz de modo particular pelos eleitos. R. C. Sproul argumentava nessa mesma linha ao apelar para João 10.15 e João 17.9. O que gerou o atrito não foi a doutrina em si, e sim a formulação escolhida para enunciá-la em público.
Repercussão
A fala aprofundou a disputa histórica entre calvinistas e arminianos no Brasil e provocou desconforto até dentro do ambiente reformado nacional. Parte da crítica veio de quem partilha da mesma soteriologia e questionou a prudência pastoral da formulação, e não seu conteúdo confessional. No campo arminiano, a reação apelou principalmente a João 3.16 e à oferta universal do evangelho.
Análise do Boletim da Mesa
Esta Mesa é assembleiana e arminiana, e não faz segredo disso. Mas o serviço mais útil que podemos prestar aqui não é aplaudir o lado de casa.
Duas coisas precisam ser ditas ao mesmo tempo. A primeira é que a doutrina da expiação definida é antiga, confessional e defendida por gente séria. Chamá-la de heresia é ignorância, e ignorância não é argumento. Quem quiser refutá-la precisa fazê-lo com texto, não com indignação.
A segunda é que a forma importa. Existe uma distância enorme entre sustentar a expiação definida em sala de aula e transformá-la em manchete negativa sobre o amor de Deus diante de milhares de ouvintes. O calvinista clássico sempre distinguiu o amor geral de Deus por toda a criatura do amor salvífico particular pelos eleitos. Quando essa distinção some da formulação, o que sobra na cabeça do ouvinte comum não é uma tese teológica, é a suspeita de que Deus talvez não o queira.
Há um custo pastoral nisso que ninguém mede. O pecador que ouve "talvez Jesus não te ame" não vai correr para a Confissão de 1689 verificar as nuances. Ele vai embora.
Juntos à Mesa refletimos que:
A pergunta séria não é se o calvinista pode crer na expiação definida, porque pode e sempre creu. É se qualquer um de nós tem o direito de comunicar uma verdade doutrinária de um modo que fecha a porta que o próprio Cristo mandou abrir.
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