Por Que Saem Mais do Que Ficam? Reflexões Sobre a Retenção de Membros na Assembleia de Deus Ministério Belém
A Assembleia de Deus cresce em número de templos, mas perde fiéis pela porta dos fundos. O problema pode estar menos na mensagem e mais na maneira como acolhemos — ou deixamos de acolher — aqueles que chegam.
Wender Gabriel
3/29/20265 min read
Há uma imagem que me incomoda há anos: a porta da frente da igreja sempre aberta, recebendo novos convertidos, enquanto a porta dos fundos permanece escancarada, deixando sair aqueles que chegaram cheios de esperança e foram embora silenciosamente, muitas vezes sem que ninguém percebesse.
A Assembleia de Deus Ministério Belém é, sem dúvida, uma das maiores e mais influentes expressões do pentecostalismo brasileiro. Fundada a partir dos esforços pioneiros dos missionários suecos Gunnar Vingren e Daniel Berg, em Belém do Pará, no ano de 1911, ela ajudou a moldar o protestantismo popular no Brasil. Segundo dados do IBGE e estudos do Ipea, a Assembleia de Deus é a denominação com maior número de estabelecimentos religiosos no país, representando 14% de todos os templos evangélicos formalizados em 2021. Estimativas apontam para mais de 22,5 milhões de membros em todo o Brasil.
Mas por que, diante de números tão expressivos, a sensação de quem está no chão das congregações locais é tantas vezes a oposta? Por que tantos convertem e poucos permanecem?
O Problema Real: A Porta dos Fundos
A socióloga Maria Angélica Martins, em análise publicada no Sete Margens, levantou uma pergunta pertinente: se em 2010, 21% dos evangélicos já estavam desligados das instituições religiosas, por que o número de igrejas continuou crescendo? O crescimento de templos, ela observou, não necessariamente acompanha o crescimento de membros comprometidos e enraizados.
Esse fenômeno é o que alguns pesquisadores chamam de "evasão silenciosa" — pessoas que se convertem, frequentam por algum tempo e desaparecem sem explicação. Não abandonam a fé, mas abandonam a comunidade. E a pergunta que toda liderança deveria se fazer é: o que fizemos, ou deixamos de fazer, que tornou isso possível?
O Julgamento Que Afasta
Uma das causas mais recorrentes que observamos no cotidiano eclesial é a cultura do julgamento. A pessoa chega com seu histórico, suas marcas, suas roupas, seu vocabulário, sua vida ainda em construção — e encontra, em vez de graça, uma régua. Uma régua doutrinária, uma régua comportamental, uma régua estética.
A Palavra de Deus, porém, aponta para uma direção completamente diferente. Em Lucas 15, Jesus narra três parábolas seguidas sobre a busca pelo perdido: a ovelha, a moeda e o filho pródigo. Em todas elas, o protagonismo não é de quem ficou, mas de quem buscou. O pastor deixa as noventa e nove para ir atrás da uma. A mulher varre toda a casa para encontrar a moeda. O pai corre ao encontro do filho ainda distante. Em nenhuma dessas parábolas há julgamento. Há busca, há alegria, há festa.
Paulo também foi categórico em Romanos 15.7: "Portanto, acolhei-vos uns aos outros, como também Cristo vos acolheu, para glória de Deus." A palavra grega usada aqui para acolher, proslambanō, carrega o sentido de tomar para si, receber de forma ativa e intencional. Não é uma recepção passiva. É um movimento deliberado em direção ao outro.
A Falta de Cuidado Pastoral
Além do julgamento, há outra ferida menos visível: a ausência de acompanhamento. Muitas igrejas são excelentes em fazer o altar de conversão, mas péssimas no que vem depois. O recém-convertido é batizado, posto em uma cadeira e esperado para que se vire sozinho no entendimento da fé.
O modelo neotestamentário é radicalmente diferente. Em Atos 2.42-47, a igreja primitiva era caracterizada pela constância no ensino dos apóstolos, na comunhão, no partir do pão e nas orações. O cuidado era mútuo e cotidiano, não apenas cerimonial. Em Gálatas 6.2, Paulo instrui: "Levai os fardos uns dos outros, e assim cumprireis a lei de Cristo." O discipulado não é um programa; é uma cultura.
O pastor Douglas Roberto de Almeida Baptista, pós-doutorado em Educação e presidente do Conselho de Educação e Cultura da CGADB, foi preciso ao afirmar: "Se não tivermos uma formação de caráter cristão, a quantidade não fará tanta diferença. A conscientização evangélica para formação do caráter cristão precisa ser tomada com urgência para que a quantidade seja revestida de qualidade."
O Que Diz a Pesquisa
O fenômeno dos "desigrejados" — evangélicos que se identificam como cristãos mas não pertencem a nenhuma congregação — é crescente no Brasil. Segundo dados do Censo 2010 do IBGE, já naquele período 21% dos evangélicos estavam desvinculados de qualquer comunidade. A tendência é de crescimento. E boa parte dessas pessoas não saiu porque perdeu a fé. Saiu porque se sentiu julgada, ignorada ou não cuidada.
A pesquisa sociológica aponta, ainda, que o modelo de gestão eclesial das Assembleias de Deus, descrito por Paul Freston como "oligárquico e caudilhesco", favorece a centralização em torno de lideranças fortes, o que pode — quando mal exercido — criar ambientes nos quais a correção é mais presente que o acolhimento.
O Que Podemos Fazer
A resposta não está em flexibilizar a doutrina ou em relativizar o pecado. Está em levar a sério o que a Bíblia chama de koinonia — comunhão. Uma comunhão que não começa depois que a pessoa se adequa, mas que a envolve antes que ela se transforme.
Algumas práticas concretas que as congregações locais podem adotar:
1. Criar grupos de integração para novos convertidos. Não apenas um "encontro de batismos", mas acompanhamento sistemático por mentores — pessoas mais maduras na fé que caminhem ao lado do novo crente pelos primeiros meses.
2. Treinar a liderança para acolher antes de corrigir. O modelo de Jesus em João 4, com a mulher samaritana, é exemplar: Ele iniciou a conversa, criou conexão, tratou a necessidade real dela — e apenas então tocou nas questões mais difíceis.
3. Rever a cultura de julgamento visível. Isso não significa omitir a santidade, mas compreender que a santificação é um processo (1 Tessalonicenses 5.23) e que a pessoa que está começando precisa de tempo, de graça e de comunidade.
4. Fortalecer a Escola Bíblica Dominical. A EBD é um dos instrumentos mais eficazes de enraizamento e formação. Uma congregação que leva a sério o ensino bíblico forma discípulos que ficam — porque entendem por que ficam.
Conclusão
Crescer em número sem crescer em cuidado é, em última análise, uma contradição com o próprio evangelho que pregamos. Jesus não chamou apenas para converter — chamou para discípular (Mateus 28.19-20). A Assembleia de Deus Ministério Belém tem uma herança preciosa e uma história de fogo. Mas o fogo que não aquece — apenas queima — afasta as ovelhas em vez de reunir.
Que possamos ser, como Pedro foi chamado a ser, pastores que alimentam (João 21.15-17) — e não apenas porteiros que contam quem entra.
