O Silêncio que Fere: a omissão da Igreja diante da violência doméstica
Toda semana, em alguma igreja evangélica no Brasil, uma mulher com marcas no corpo canta hinos de louvor. Ela pediu ajuda ao pastor. Ele orou, pediu paciência, falou em submissão e a devolveu para casa. Para o mesmo lugar. Para o mesmo homem. Esse relato não é ficção. É o padrão descrito por centenas de mulheres evangélicas que sobreviveram à violência doméstica e que, ao buscar amparo na comunidade de fé, encontraram silêncio, minimização ou nos casos mais dolorosos culpa.
ARTIGOS
Wender Gabriel
4/13/20264 min read
Imagem por Sasun Bughdaryan in Unsplash
A realidade que os números confirmam
O Brasil ocupa o 5º lugar no ranking mundial de feminicídio (OMS/2023). Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, uma mulher é agredida a cada 4 minutos no país. Pesquisas de campo realizadas com mulheres em situação de violência doméstica mostram que mais de 60% se identificam como cristãs e que a Igreja foi, em muitos casos, o primeiro lugar onde buscaram ajuda.
O dado mais perturbador, no entanto, é outro: parte significativa dos agressores relatados por essas mulheres são homens que ocupam posições de liderança eclesiástica pastores, diáconos, obreiros, líderes de célula. O ambiente religioso, ao envolver o agressor em uma aura de autoridade espiritual, cria barreiras adicionais para que a vítima seja acreditada.
Uma teologia que aprisiona
Não se trata apenas de falhas individuais de pastores. Há construções teológicas sendo sistematicamente mal utilizadas para manter mulheres em relacionamentos abusivos.
A doutrina da submissão, baseada em Efésios 5.22, é citada com frequência em aconselhamentos pastorais como argumento para que a mulher "persevere". Ignorando que o mesmo texto exige do marido que ame a esposa "como Cristo amou a Igreja e a si mesmo se entregou por ela" (Ef 5.25) uma teologia de autodoação, não de dominação.
A indissolubilidade do casamento é invocada como razão para a vítima permanecer com o agressor. Mas nenhuma leitura responsável das Escrituras pode sustentar que Deus prefere ver uma mulher morta a ver um casamento terminado.
Usar a Bíblia para silenciar vítimas não é fidelidade teológica. É abuso espiritual.
O que a Escritura de fato diz
A Palavra de Deus é inequívoca quanto ao cuidado pelo oprimido:
"Defendei o pobre e o órfão; ao aflito e ao necessitado fazei justiça. Livrai o pobre e o necessitado; tirai-os das mãos dos ímpios." — Salmo 82.3-4
"Aprendei a fazer o bem; atendei à justiça, socorrei o oprimido." — Isaías 1.17
"O Espírito do Senhor está sobre mim, [...] para proclamar libertação aos cativos." — Lucas 4.18
Jesus nunca passou ao largo do sofrimento alheio. Ele tocou os intocáveis, acolheu os rejeitados e defendeu os que não tinham voz. Se somos corpo de Cristo, somos chamados a encarnar essa postura no mundo inclusive quando o opressor frequenta o nosso culto.
Vale ainda lembrar que Malaquias 2.16, texto frequentemente citado apenas para falar contra o divórcio, afirma também que o Senhor odeia o que "cobre de violência a sua veste". Essa segunda parte raramente entra nos sermões.
O silêncio pastoral não é neutro
Quando uma mulher busca ajuda na Igreja e encontra omissão, as consequências são concretas:
A vítima interpreta o silêncio como validação do comportamento do agressor.
O agressor recebe sinalização implícita de que sua conduta é tolerável.
A vítima perde sua principal rede de apoio, tornando-se ainda mais vulnerável.
Em casos extremos, a omissão pastoral contribui diretamente para o feminicídio.
Isso precisa ser dito sem eufemismos: quando um pastor, ciente de uma situação de risco grave, escolhe não agir não orienta sobre a Lei Maria da Penha, não oferece encaminhamento, não protege e a mulher é posteriormente assassinada, essa liderança carrega responsabilidade moral por aquela morte.
O que precisa mudar
A denúncia sem proposta seria insuficiente. Apontamos caminhos concretos:
1. Formação pastoral adequada. Seminários e institutos bíblicos precisam incluir em seus currículos conteúdo sobre ciclos de abuso, violência doméstica e saúde mental. Um pastor que não reconhece os sinais de um relacionamento abusivo não está equipado para o cuidado pastoral no século XXI.
2. Protocolos de acolhimento e encaminhamento. Toda igreja local deveria ter clareza sobre onde encaminhar vítimas: CRAS, CREAS, Casa da Mulher Brasileira, delegacias especializadas, Ligue 180. A fé e o Estado têm responsabilidades complementares na proteção da vida.
3. Fim da proteção institucional ao agressor. Líderes que praticam violência doméstica devem ser afastados imediatamente de suas funções. Não há "restauração ministerial" que passe por cima da segurança das vítimas. A disciplina eclesiástica existe exatamente para isso.
4. Pregação sobre o tema. O púlpito é pedagógico. Quando pastores pregam regularmente sobre a dignidade da mulher e sobre o que constitui abuso, educam a congregação, desmistificam o silêncio e comunicam às vítimas que serão acreditadas.
Juntos à mesa Refletimos que:
A Igreja que silencia diante do sofrimento das mulheres não apenas falha moralmente ela desfigura o Evangelho que proclama.
Que tipo de testemunho oferecemos quando uma mulher em desespero bate à porta de nossa igreja e encontra o mesmo silêncio que encontrou em casa?
A violência doméstica é pecado. Não apenas do agressor mas de todos que, podendo agir, escolhem a omissão.
"Não retenhas o bem dos que o merecem, quando estiver no poder de tua mão fazê-lo." Provérbios 3.27
O poder de fazer o bem está em nossas mãos. E vidas dependem de como vamos usá-lo.
Referências
Bíblicas
Salmo 82.3-4; Salmo 37.28
Provérbios 3.27
Isaías 1.17; 61.1
Malaquias 2.16
Efésios 5.22-25
Lucas 4.18
Dados e pesquisas
Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2023. São Paulo: FBSP, 2023.
Organização Mundial da Saúde (OMS). Global, regional, and national prevalence estimates for intimate partner violence. Genebra: WHO, 2021.
Souza, Sandra Duarte de. Violência doméstica e religião: entre o silêncio e a denúncia. Revista Mandrágora, v.18, n.18, 2012.
Teológicas e pastorais
Keener, Craig S. Paul, Women and Wives. Grand Rapids: Baker Academic, 1992.
Webb, William J. Slaves, Women and Homosexuals: Exploring the Hermeneutics of Cultural Analysis. Downers Grove: IVP, 2001.
Miles, Al. Violence in Families: What Every Christian Needs to Know. Minneapolis: Augsburg Fortress, 2002.
Kroeger, Catherine Clark; Beck, James R. (eds.). Healing the Hurting: Giving Hope and Help to Abused Women. Grand Rapids: Baker Books, 1998.
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