O Jesus que Pondé Não Conhece: Uma Resposta à Dicotomia entre o Jesus Histórico e o Cristo da Fé

Em coluna recente na Folha de São Paulo, o filósofo Luiz Felipe Pondé afirmou que o Jesus histórico e o Cristo da fé não são a mesma pessoa. Neste artigo, a Mesa Teológica responde com rigor bíblico e histórico a essa tese antiga e seus perigos para a fé cristã.

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Wender Gabriel

4/6/20267 min read

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Em coluna publicada na Folha de São Paulo no dia 29 de março de 2026, o filósofo Luiz Felipe Pondé afirmou, sem rodeios, que o Jesus histórico e o Cristo da fé não são a mesma pessoa. Segundo ele, o Jesus que caminhou pela Galileia foi apenas um entusiasta apocalíptico, curandeiro e rabino carismático, e que o Cristo adorado pelos cristãos, o Deus encarnado, não passa de uma construção social elaborada por Paulo de Tarso, pelos evangelistas e consolidada no Concílio de Niceia em 325 d.C.

A afirmação é provocadora. Pondé sabe disso e, em grande medida, é exatamente o que ele busca. Mas provocação não é argumento. E o que está em jogo aqui não é uma disputa acadêmica entre filósofos: é a identidade do Senhor Jesus Cristo, fundamento da fé cristã histórica. Por isso, a Mesa Teológica não pode deixar passar.

Uma Tese Velha com Roupagem Nova

Seria um erro tratar a afirmação de Pondé como uma descoberta recente da filosofia brasileira. A dicotomia entre o Jesus histórico e o Cristo da fé tem raízes profundas no racionalismo europeu do século XIX. Foi com Hermann Samuel Reimarus que essa separação começou a ganhar forma acadêmica, ao sugerir que Jesus foi um líder messiânico fracassado e que seus discípulos inventaram a ressurreição para salvar o movimento.

Albert Schweitzer, em sua obra clássica A Busca do Jesus Histórico (1906), fez um mapeamento honesto e devastador dessa tradição: mostrou que cada pesquisador liberal do século XIX havia, na prática, construído um Jesus à sua própria imagem. O Jesus dos racionalistas era racional. O Jesus dos românticos era poético. O Jesus dos progressistas era um reformador social. Schweitzer percebeu a armadilha, ainda que ele mesmo não tenha escapado completamente dela.

Mas foi Rudolf Bultmann quem levou essa tradição ao seu ponto mais radical no século XX. Com a proposta da desmitologização das Escrituras, Bultmann partiu de uma intenção que, a seu modo, buscava ser pastoral: tornar o evangelho mais acessível ao homem moderno, retirando o que ele chamava de mitologia da linguagem bíblica, como milagres, ressurreição corporal e escatologia literal. O problema é que, ao fazer isso, Bultmann não apenas reinterpretou a Bíblia. Ele a esvaziou. O Jesus que sobrou em seu sistema não ressuscitou corporalmente, não nasceu de uma virgem e não é Deus encarnado no sentido que o Novo Testamento afirma. Ficou apenas uma mensagem existencial sobre autenticidade humana.

A intenção de Bultmann pode ter sido boa. O resultado foi a dissolução do evangelho.

Pondé bebe nessa fonte. Ao citar o historiador Geza Vermes para reduzir Jesus a um rabino carismático, ele repete, em linguagem jornalística e coloquial, o que a teologia liberal já dizia há mais de um século. O problema não é a novidade da ideia. O problema é apresentá-la como se fosse consenso historiográfico, quando não é.

Niceia Não Inventou Nada

Um dos pilares do argumento de Pondé é a ideia de que a divindade de Cristo foi uma invenção tardia, consolidada no Concílio de Niceia em 325 d.C. Essa narrativa circula com força nos meios secularistas, mas ela não resiste a uma leitura honesta das fontes.

O Concílio de Niceia não inventou a divindade de Cristo. Ele respondeu a uma heresia, o arianismo de Ário, que negava a plena divindade do Filho. O que Niceia fez foi afirmar, com linguagem filosófica precisa, o que as igrejas já criam e confessavam desde o primeiro século.

Basta olhar para os textos. A carta de Paulo aos Filipenses, escrita por volta de 62 d.C., afirma que Cristo Jesus, "sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus" (Fp 2.6). A carta aos Colossenses declara que "nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade" (Cl 2.9). O prólogo do Evangelho de João, escrito no final do século I, abre com: "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus" (Jo 1.1). Niceia está em 325. Esses textos estão mais de 200 anos antes.

Dizer que Niceia inventou a divindade de Cristo é como dizer que uma assembleia que confirma uma lei está inventando a lei. A crença já estava lá. O Concílio apenas a definiu com rigor diante de quem a negava.

Os Historiadores Também Discordam de Pondé

Outro problema sério no argumento de Pondé é tratar a historiografia como se fosse unânime em sua direção. Não é. Há um campo robusto de estudos do Novo Testamento, com historiadores de rigor acadêmico indiscutível, que defendem a continuidade entre o Jesus histórico e a fé cristã primitiva.

O historiador e teólogo britânico N.T. Wright demonstra com extenso aparato histórico que a ressurreição corporal de Jesus é a melhor explicação disponível para o surgimento do movimento cristão no contexto do judaísmo do século I. Wright não parte de pressupostos religiosos para chegar à sua conclusão. Ele parte do método histórico.

Larry Hurtado, em Lord Jesus Christ, mostra que a devoção a Jesus como divino não foi uma invenção tardia da Igreja institucionalizada, mas surge de forma explosiva e impressionante já nas primeiras décadas após a crucificação, bem dentro do horizonte de vida das testemunhas oculares.

Richard Bauckham, em Jesus and the Eyewitnesses, argumenta de forma convincente que os evangelhos têm conexão direta com tradições de testemunhas oculares, tornando a tese de uma fabricação coletiva posterior historicamente implausível.

Geza Vermes, o historiador que Pondé cita favoravelmente, era um judeu não cristão que via Jesus como um carismático judeu piedoso. Sua leitura é legítima como hipótese historiográfica, mas não é consenso. É uma interpretação entre outras, e não necessariamente a mais sustentada pelo conjunto das evidências.

Não é Só Pondé: Quem Mais Defende Isso?

A tese que Pondé apresenta em sua coluna não é propriedade exclusiva de filósofos agnósticos brasileiros. Ela ressoa em tradições religiosas e filosóficas que há séculos recusam a identidade entre o Jesus histórico e o Deus encarnado.

O judaísmo ortodoxo, de forma coerente com sua própria teologia, não reconhece Jesus como o Messias prometido, muito menos como Deus encarnado. Para o judaísmo rabínico, Jesus foi um judeu que viveu e morreu, e a teologia cristã sobre ele é, na melhor das hipóteses, um desvio. Isso é compreensível dentro da lógica interna do judaísmo. O que não é aceitável é que cristãos adotem essa mesma premissa como se fosse neutralidade acadêmica.

As Testemunhas de Jeová ensinam que Jesus foi a primeira criatura de Deus, mas não Deus encarnado de forma plena. Essa posição é, em essência, uma forma moderna do arianismo que Niceia condenou no século IV.

Os mórmons, a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, ensinam que Jesus e Deus Pai são seres separados e distintos. A concepção mórmon de Cristo é radicalmente diferente da cristologia histórica e ortodoxa.

Em todos esses casos, há um Jesus que é separado do Deus verdadeiro, eterno e criador. O Jesus que sobra é menor, derivado, construído. E é exatamente esse o Jesus que Pondé, sem talvez perceber a companhia que faz, acaba defendendo em sua coluna.

O Perigo Real: Teologia de Aparência

O ponto que a Mesa Teológica quer deixar com clareza não é o de atacar Pondé como pessoa. Pondé é um filósofo sério, de formação rigorosa, que levanta questões genuínas. Isso merece reconhecimento.

Mas o perigo que sua coluna representa é exatamente o que Paulo descreveu aos coríntios: palavras de aparente sabedoria que esvaziam a cruz de Cristo (1Co 1.17). Um texto que fala de Jesus com erudição, que cita historiadores e concílios, que soa profundo e informado, mas que no final das contas nega aquilo que é o centro da fé cristã: que o Jesus que andou pela Galileia, que foi crucificado sob Pôncio Pilatos e que ressuscitou no terceiro dia, é o mesmo Senhor eterno que estava com o Pai antes da fundação do mundo.

Quando um filósofo de prestígio escreve isso em um grande jornal, o crente que lê sem base teológica pode ficar confuso. Pode pensar que se trata de uma descoberta da ciência histórica. Pode imaginar que os pastores e professores da sua igreja simplesmente não sabem o que os acadêmicos sabem. Pode começar a tratar a divindade de Cristo como uma crença opcional, uma interpretação entre outras.

É por isso que a teologia importa. É por isso que o professor de EBD importa. É por isso que o cristão precisa estudar, não para impressionar ninguém, mas para não ser levado por todo vento de doutrina (Ef 4.14), mesmo quando esse vento sopra nas páginas de um grande jornal, assinado por um doutor em filosofia.

Juntos à Mesa refletimos que:

A Bíblia não apresenta dois Jesus. Não há um Jesus real, humano e histórico de um lado, e um Jesus teológico, fabricado e sobrenatural do outro. O Jesus que os evangelhos apresentam é, ao mesmo tempo, plenamente humano e plenamente divino. Ele tem fome (Mt 4.2), chora (Jo 11.35), se cansa (Jo 4.6) e morre (Jo 19.30). E também perdoa pecados com autoridade divina (Mc 2.5-7), caminha sobre as águas (Mt 14.25), ressuscita dos mortos (Jo 20) e declara: "Antes que Abraão existisse, eu sou" (Jo 8.58).

Essa não é uma contradição que a Igreja precisou resolver em Niceia. É a afirmação central de todo o Novo Testamento, presente desde os textos mais antigos até os mais recentes. A encarnação é o coração do evangelho: "o Verbo se fez carne e habitou entre nós" (Jo 1.14).

Refutamos a tese de Pondé não por medo do debate ou por incapacidade de enfrentá-lo, mas porque ela contradiz as Escrituras, desconsidera parte significativa da historiografia séria e, no limite, retira de Jesus Cristo aquilo que Ele mesmo reivindicou ser.

Pensar a fé é um ato de adoração. E adorar a um Jesus menor do que o que a Bíblia revela não é adoração. É ilusão.

Referências

BULTMANN, Rudolf. Jesus Cristo e Mitologia. São Paulo: Novo Século, 2003.

BAUCKHAM, Richard. Jesus and the Eyewitnesses: The Gospels as Eyewitness Testimony. Grand Rapids: Eerdmans, 2006.

HURTADO, Larry W. Lord Jesus Christ: Devotion to Jesus in Earliest Christianity. Grand Rapids: Eerdmans, 2003.

SCHWEITZER, Albert. A Busca do Jesus Histórico. São Paulo: Teológica, 2003.

VELIQ, Fabrício. A Relação entre o Jesus Histórico e o Cristo da Fé. Dissertação de Mestrado. Belo Horizonte: Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, 2022.

VERMES, Geza. Jesus, o Judeu. São Paulo: Loyola, 1990.

WRIGHT, N.T. The Resurrection of the Son of God. Minneapolis: Fortress Press, 2003.

BÍBLIA SAGRADA. Versão Almeida Revista e Corrigida.