O Autoritarismo Pastoral no Pentecostalismo Brasileiro
Uma Análise do Fenômeno dos "Coronéis da Fé"
ARTIGOS
Vinicius Gabriel
4/25/20268 min read


O crescimento acelerado das igrejas evangélicas no Brasil ao longo das últimas décadas trouxe consigo não apenas uma expansão numérica expressiva, mas também o surgimento de dinâmicas institucionais que merecem atenção crítica por parte de teólogos e estudiosos da religião. Entre essas dinâmicas, destaca-se o fenômeno dos pastores que exercem sua liderança de forma autoritária, utilizando o cargo eclesiástico como instrumento de controle, punição e dominação sobre os membros de suas congregações.
O termo "coronel da fé", emprestado da tradição política do coronelismo brasileiro descrita por Victor Nunes Leal, tem sido utilizado de forma crescente para descrever líderes religiosos que reproduzem, no interior das igrejas, estruturas de poder personalistas, patriarcalistas e coercitivas. Assim como o coronel político exercia controle sobre a população por meio de uma combinação de favor, ameaça e autoridade simbólica, determinados pastores constroem redes de dependência espiritual que submetem os membros da congregação à sua vontade pessoal.
Este artigo busca analisar esse fenômeno no contexto evangélico e pentecostal brasileiro, identificar suas características estruturais, examinar suas bases teológicas distorcidas e refletir sobre suas consequências para a saúde espiritual e psicológica dos fiéis, confrontando esse modelo com os princípios bíblicos do pastoreio cristão.
Do Coronelismo Político ao Coronelismo Religioso
O coronelismo, enquanto fenômeno político, foi amplamente estudado no Brasil como uma forma de dominação baseada no poder local, no controle de recursos e na submissão de populações vulneráveis a figuras de autoridade que combinavam prestígio social, poder econômico e capacidade de punição. Esse modelo, embora associado historicamente ao contexto rural da Primeira República, encontrou formas de sobrevivência e adaptação em diferentes esferas da vida social brasileira (LEAL, 1975).
No campo religioso, pesquisadores como Alexandre Brasil Fonseca e outros estudiosos do protestantismo brasileiro têm apontado para a existência de estruturas análogas dentro de denominações evangélicas. O "coronel da fé" é aquele pastor que concentra em sua pessoa não apenas a autoridade espiritual reconhecida pela tradição cristã, mas também o controle institucional, financeiro e disciplinar da congregação, exercendo esse controle de forma arbitrária e frequentemente abusiva.
Essa transposição do modelo coronelista para o campo religioso é facilitada por alguns fatores específicos do contexto evangélico brasileiro: a ausência de mecanismos externos de fiscalização eclesiástica, a cultura de deferência pastoral herdada de certas tradições teológicas, e a sacralização da autoridade do líder, apresentada como diretamente delegada por Deus e, portanto, incontestável (CAMPOS, 1997).
Características do Autoritarismo Pastoral
O controle espiritual como instrumento de dominação
Uma das marcas mais recorrentes do autoritarismo pastoral é o que estudiosos da psicologia da religião têm chamado de abuso espiritual. Nessa dinâmica, o pastor utiliza a autoridade religiosa para exercer controle sobre decisões que pertencem ao âmbito da vida privada dos membros: escolhas profissionais, relacionamentos afetivos, finanças pessoais e vínculos familiares (LANGBERG, 2015).
O pastor autoritário frequentemente apresenta sua opinião pessoal como vontade revelada de Deus, de modo que discordar do líder equivale, no imaginário da congregação, a discordar do próprio Deus. Esse mecanismo cria um ambiente de submissão que vai muito além da obediência cristã ordinária, configurando uma estrutura de dependência psicológica e espiritual que sufoca o pensamento crítico e a autonomia dos fiéis.
A punição como mecanismo de controle institucional
Outro elemento característico do coronelismo religioso é o uso da disciplina eclesiástica não como instrumento de restauração fraterna, conforme previsto na tradição cristã histórica, mas como mecanismo de punição e intimidação. Membros que questionam decisões do pastor, que buscam outras igrejas, ou que simplesmente deixam de contribuir financeiramente de forma satisfatória, podem ser alvo de disciplinas públicas, exclusões formais ou campanhas de difamação dentro da própria congregação (ALENCAR, 2013).
Em muitos casos, a exclusão da comunidade religiosa é utilizada como ameaça velada ou explícita, produzindo nos membros o temor de perder não apenas o vínculo com a igreja, mas também as redes de relacionamento social, familiar e afetivo concentradas naquele ambiente. Essa situação é particularmente grave em comunidades onde a igreja funciona como o centro quase exclusivo da vida social dos fiéis.
A sacralização do cargo pastoral
Um terceiro elemento estrutural do autoritarismo pastoral é a teologia distorcida que sustenta esse modelo de liderança. Em muitas congregações onde o fenômeno se manifesta, desenvolve-se uma eclesiologia que atribui ao pastor poderes quase absolutos sobre a congregação, fundamentada em interpretações tendenciosas de textos bíblicos como Hebreus 13.17 e 1 Crônicas 16.22.
Essa leitura transforma o pastor em figura intocável, acima de qualquer questionamento ou prestação de contas, e converte a obediência ao líder em virtude espiritual de primeira ordem. Em contextos mais extremos, desenvolve-se o que alguns pesquisadores chamam de "cristologia pastoral", uma assimilação simbólica do pastor à figura de Cristo, em que servir ao líder equivale a servir a Deus (MARIANO, 1999).
Bases Teológicas Distorcidas
A deformação da autoridade pastoral
A tradição cristã histórica reconhece a autoridade pastoral como um serviço à comunidade, não como um privilégio pessoal. O modelo apresentado no Novo Testamento é o da liderança servidora, fundamentada nas próprias palavras de Jesus: "O maior entre vós será vosso servo" (Mateus 23.11).
O apóstolo Pedro, dirigindo-se aos presbíteros, instrui que o cuidado do rebanho deve ser exercido "não por obrigação, mas de boa vontade; não por ganância, mas com dedicação; não como dominadores dos que vos foram confiados, mas servindo de exemplo ao rebanho" (1 Pedro 5.2-3). Essa orientação apostólica não deixa margem para uma liderança que se exerce por meio da coerção ou da intimidação.
Teólogos como John Stott e Dietrich Bonhoeffer enfatizam que a liderança cristã autêntica é radicalmente incompatível com o exercício do poder de forma coercitiva. Bonhoeffer, em particular, alertou para os perigos da liderança religiosa que se funda no carisma pessoal do líder em detrimento da centralidade de Cristo e da Palavra (BONHOEFFER, 2003).
A instrumentalização da disciplina eclesiástica
A disciplina eclesiástica, na tradição reformada e no pentecostalismo clássico, tem como objetivo primário a restauração do crente que se afastou da fé ou da prática cristã. O processo descrito em Mateus 18.15-17 pressupõe diálogo, fraternidade e etapas progressivas orientadas para a reconciliação, não para a punição.
Quando a disciplina é transformada em instrumento de controle institucional e vingança pessoal, ela desvirtua completamente sua função teológica e pastoral. A disciplina que não busca restaurar o irmão não é disciplina cristã; é exercício de poder (HORTON, 1996).
Perspectivas Sociológicas
Pesquisadores como Gedeon Alencar e Leonildo Silveira Campos têm analisado como determinadas estruturas eclesiásticas favorecem a concentração de poder na figura do pastor fundador, dificultando a formação de instâncias coletivas de governança e prestação de contas. Essa ausência de mecanismos institucionais de controle cria o ambiente propício para o desenvolvimento do autoritarismo pastoral.
Ricardo Mariano, em sua obra Neopentecostais: Sociologia do Novo Pentecostalismo no Brasil (1999), analisa como o campo religioso evangélico brasileiro reproduz lógicas de mercado e de poder que favorecem líderes carismáticos com grande capacidade de mobilização de recursos materiais e simbólicos. Essa dinâmica contribui para a formação de figuras pastorais que operam com autonomia quase irrestrita dentro de suas instituições.
Paul Freston, estudioso do protestantismo brasileiro e latino-americano, aponta para a relação entre o crescimento acelerado de determinadas igrejas e o desenvolvimento de estruturas de liderança personalistas e pouco transparentes. Para Freston, o protestantismo brasileiro apresenta uma tendência estrutural à concentração de poder nas mãos de líderes fundadores, o que cria condições favoráveis ao autoritarismo pastoral (FRESTON, 1993).
Consequências para os Fiéis e para a Igreja
As consequências do autoritarismo pastoral são amplas e afetam diferentes dimensões da vida dos membros. No plano psicológico, pesquisas sobre abuso espiritual indicam que a submissão prolongada a lideranças coercitivas pode produzir quadros de dependência emocional, dificuldade de tomar decisões autônomas, sentimentos de culpa crônicos e, em casos mais graves, transtornos relacionados ao trauma (LANGBERG, 2015).
No plano eclesiológico, o autoritarismo pastoral produz congregações que giram em torno da personalidade do líder, não em torno de Cristo e de sua Palavra. Isso gera comunidades frágeis, incapazes de se sustentar sem a figura central do pastor, e propensas ao colapso institucional quando o líder é removido ou cai em descrédito.
No plano teológico, o fenômeno distorce a compreensão que os membros têm de Deus, da graça e da liberdade cristã, substituindo o evangelho da graça por um sistema de merecimento e submissão que se aproxima mais do legalismo do que do cristianismo bíblico. Gordon Fee ressalta que a autêntica espiritualidade cristã liberta o crente para a maturidade e a responsabilidade pessoal, não o aprisiona em estruturas de dependência humana (FEE, 1994).
Juntos à Mesa refletimos que:
O fenômeno dos "coronéis da fé" representa um dos desafios mais sérios para a saúde do cristianismo evangélico e pentecostal brasileiro. Sua persistência e expansão revelam não apenas fragilidades teológicas, mas também déficits estruturais de governança eclesiástica e de formação crítica dos membros das igrejas.
Uma resposta adequada a esse fenômeno exige, ao mesmo tempo, a recuperação de uma eclesiologia bíblica que distribua a autoridade entre múltiplos líderes e estabeleça mecanismos efetivos de prestação de contas, bem como uma teologia pastoral que recoloque o serviço no centro do ofício pastoral.
Exige também que as próprias comunidades de fé desenvolvam maturidade suficiente para reconhecer e resistir a dinâmicas abusivas, compreendendo que a obediência cristã jamais pode significar a abdicação da consciência e da dignidade pessoal. A fé cristã, em sua expressão mais fiel ao testemunho do Novo Testamento, é vivida em comunidade de irmãos iguais diante de Cristo, e não como um rebanho submisso ao arbítrio de um coronel que porta, em vez de espada, uma Bíblia.
Referências
ALENCAR, Gedeon Freire de. Protestantismo Tupiniquim: Hipóteses sobre a (não) contribuição evangélica à cultura brasileira. São Paulo: Arte Editorial, 2005.
ALENCAR, Gedeon Freire de. Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011. Rio de Janeiro: Novos Diálogos, 2013.
BONHOEFFER, Dietrich. Vida em Comunidade. São Leopoldo: Sinodal, 2003.
CAMPOS, Leonildo Silveira. Teatro, Templo e Mercado: Organização e Marketing de um Empreendimento Neopentecostal. Petrópolis: Vozes; São Paulo: Simpósio; São Bernardo do Campo: UMESP, 1997.
FEE, Gordon D. God's Empowering Presence: The Holy Spirit in the Letters of Paul. Peabody: Hendrickson, 1994.
FONSECA, Alexandre Brasil. Evangélicos e Mídia no Brasil. Bragança Paulista: EDUSF, 2003.
FRESTON, Paul. Protestantes e Política no Brasil: Da Constituinte ao Impeachment. Tese de Doutorado. Campinas: UNICAMP, 1993.
HORTON, Stanley M. Teologia Sistemática: Uma Perspectiva Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 1996.
LANGBERG, Diane. Suffering and the Heart of God: How Trauma Destroys and Christ Restores. Greensboro: New Growth Press, 2015.
LEAL, Victor Nunes. Coronelismo, Enxada e Voto: O Município e o Regime Representativo no Brasil. São Paulo: Alfa-Ômega, 1975.
MARIANO, Ricardo. Neopentecostais: Sociologia do Novo Pentecostalismo no Brasil. São Paulo: Loyola, 1999.
STOTT, John R. W. A Pregação: Ponte entre Dois Mundos. São Paulo: Cultura Cristã, 1984.
Foto: ADVEC
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