O AMOR QUE ESFRIA: UM OLHAR SOBRE O ESFRIAMENTO ESPIRITUAL DA IGREJA BRASILEIRA

Há algo mudando nas igrejas brasileiras. Não é um fenômeno fácil de quantificar, mas qualquer pastor ou líder que esteja atento ao chão da congregação sente. Os bancos que ficam mais vazios a cada trimestre. A EBD que encolheu. Os cultos de oração que raramente enchem. Os membros que continuam no grupo do WhatsApp mas sumiram da vida da comunidade. O esfriamento não veio de repente veio gradualmente, silenciosamente, como costumam vir as coisas que ninguém quer nomear. Este artigo não pretende condenar ninguém. Pretende olhar com honestidade para um diagnóstico que a própria Palavra de Deus antecipou e propor o único remédio que Jesus indicou.

ARTIGOS

Wender Gabriel

4/29/20266 min read

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O Diagnóstico: Quando a Chama Diminui

O esfriamento espiritual que se observa no evangelicalismo brasileiro contemporâneo tem faces concretas e identificáveis.

A primeira delas é a crise da vida congregacional. A frequência aos cultos deixou de ser prioridade para parcelas crescentes dos membros. O domingo, que por décadas foi o dia sagrado da reunião do povo de Deus, compete hoje com viagens de final de semana, compromissos familiares, séries de streaming e o cansaço acumulado de uma semana exaustiva. A Escola Bíblica Dominical, espaço histórico de formação doutrinária e comunhão intergeracional, assiste a um esvaziamento que não é apenas numérico é teológico. Quando os membros deixam de estudar a Palavra juntos, deixam também de crescer juntos. Como afirmou John Stott, "a igreja que não ensina sua congregação está criando crentes que não sabem em que creem, e crentes que não sabem em que creem não ficam por muito tempo" (STOTT, 1997, p. 132).

A segunda face é a fragilidade dos vínculos comunitários. A pandemia acelerou um processo que já estava em curso: a substituição da presença pelo consumo de conteúdo religioso digital. O crente que acompanha cultos pelo YouTube, que ouve pregações no Spotify e que segue pastores famosos no Instagram, mas que não pertence a nenhuma comunidade local concreta, não está sendo discipulado está sendo entretido. A vida cristã bíblica não se vive em isolamento. "Não deixando a nossa congregação, como é costume de alguns" (Hb 10.25). O costume de alguns tornou-se o costume de muitos. Dietrich Bonhoeffer, em Vida em Comunidade, havia advertido que "aquele que não pode viver em comunidade deve viver sozinho. Cuidado com o que isso significa" (BONHOEFFER, 2003, p. 21). A solidão espiritual escolhida é um sintoma, não uma solução.

A terceira face, talvez a mais grave por sua posição de influência, é o esfriamento pastoral. Pastores que perderam a sensibilidade ao chamado. Líderes que se tornaram administradores de programas institucionais e esqueceram que pastorear é, antes de tudo, conhecer o rebanho pelo nome. A visita pastoral prática bíblica e insubstituível de cuidado foi progressivamente abandonada em favor de reuniões de planejamento estratégico, produção de conteúdo para redes sociais e gestão financeira da obra. O pastor que não visita seus membros nos momentos de dor, de dúvida e de crise não está pastoreando está administrando. E o rebanho sente a diferença, mesmo que não consiga nomeá-la. Paulo foi preciso ao escrever a Timóteo: "Cumpre o teu ministério" (2 Tm 4.5) não quando as condições forem favoráveis, mas sempre. C.H. Spurgeon, que pastoreou uma das maiores congregações de seu tempo, alertava que "um pastor que não ora por seu rebanho e não o visita não está mais pastoreando está presidindo um clube religioso" (SPURGEON, 2013, p. 89).

A Profecia: Jesus Já Havia Dito

Não estamos diante de uma surpresa. Jesus, ao responder à pergunta dos discípulos sobre os sinais dos últimos tempos, incluiu entre eles uma advertência que vale ser lida com atenção redobrada: "E, por se multiplicar a iniquidade, o amor de muitos esfriará" (Mt 24.12).

O contexto imediato é a descrição dos últimos dias da Igreja na terra um período marcado por tribulação, proliferação do engano e pressão sobre a fé dos crentes. O "amor de muitos" que esfria é, primariamente, o amor dentro da comunidade cristã: a fé que arrefece sob o peso da iniquidade multiplicada, das falsas doutrinas e da distração cultural. É o crente que começou com fogo e foi perdendo a chama gradualmente, sem perceber o momento exato em que o ardor virou morno.

D.A. Carson, em seu comentário sobre Mateus, observa que o verbo grego usado para "esfriará" psychō descreve um processo de resfriamento progressivo, não uma queda abrupta. "O amor não congela de uma vez; vai esfriando sob a pressão acumulada de um mundo que valoriza cada vez menos o que a fé valoriza" (CARSON, 2010, p. 498). O que acelera esse processo, segundo Jesus, é exatamente a multiplicação da iniquidade ao redor a cultura que normaliza o pecado, que ridiculariza a santidade, que torna a fé cada vez mais socialmente inconveniente.

Há, porém, um desdobramento que não pode ser ignorado: quando a Igreja esfria, a sociedade ao redor também perde calor. Jesus chamou seus discípulos de "sal da terra" e "luz do mundo" (Mt 5.13-14). Sal que perdeu o sabor não tem serventia. Luz debaixo do alqueire não ilumina coisa alguma. O esfriamento espiritual da Igreja não é um problema interno que fica nos muros dos templos ele se projeta sobre a cultura, sobre a família, sobre a política e sobre a moral pública. Timothy Keller observou que "quando a Igreja perde sua distinção, ela perde também sua relevância. Uma Igreja que se parece com o mundo não tem nada a oferecer ao mundo" (KELLER, 2020, p. 74).

O Desdobramento: Quando o Sal Perde o Sabor

O esfriamento espiritual produz consequências que se somam umas às outras. Membros sem raízes profundas na Palavra são facilmente arrastados por "todo vento de doutrina" (Ef 4.14) e o vento que sopra hoje é forte e vem de muitas direções. A superficialidade doutrinária gerada pelo esvaziamento da EBD e pelo abandono do estudo bíblico sistemático deixa o rebanho vulnerável a todo tipo de engano.

A ausência de comunhão real produz cristãos solitários que não têm com quem celebrar as bênçãos, nem com quem carregar os fardos. E a solidão espiritual, como sabe qualquer pastor atento, é o ambiente onde a fé mais facilmente definha não com estrondo, mas com silêncio.

A liderança pastoral distante e sobrecarregada produz congregações órfãs tecnicamente chefiadas, mas espiritualmente desamparadas. O apóstolo Pedro foi direto ao ponto ao instruir os presbíteros: "Apascentai o rebanho de Deus que está entre vós, não por obrigação, mas de boa vontade; não por ganância, mas com dedicação; não como dominadores dos que vos foram confiados, mas servindo de exemplo ao rebanho" (1 Pe 5.2-3). Pastorear é servir, e servir exige presença.

A Resposta: O Chamado ao Primeiro Amor

A boa notícia é que Jesus não apenas diagnosticou o esfriamento Ele também indicou o remédio. À igreja de Éfeso, que havia perdido o seu primeiro amor, o Senhor ressuscitado disse: "Lembra-te, pois, de onde caíste, e arrepende-te, e pratica as primeiras obras" (Ap 2.5).

Três verbos. Três movimentos.

Lembra-te. O retorno começa pelo reconhecimento. Antes de qualquer reforma estrutural ou estratégia de crescimento, é necessário que a Igreja líderes e membros olhe honestamente para o espelho e reconheça o esfriamento. Não com autopunição paralisante, mas com a honestidade que precede todo genuíno arrependimento.

Arrepende-te. A palavra grega metanoia não descreve apenas sentimento de culpa descreve uma mudança de direção, uma inversão de rota. O arrependimento que Jesus pede não é apenas emocional; é volitivo. É a decisão de mudar o rumo, de priorizar o que havia sido despriorizado, de retornar ao centro que havia sido abandonado.

Pratica as primeiras obras. O amor verdadeiro se demonstra em ação. As "primeiras obras" da Igreja eram oração fervorosa, estudo da Palavra, comunhão genuína, cuidado mútuo e missão (At 2.42-47). Não há fórmula nova. Não há estratégia inovadora que substitua essas práticas fundamentais. O que a Igreja brasileira precisa não é de mais programas é de mais profundidade nas práticas que sempre foram o fundamento da vida cristã autêntica.

Para os pastores especificamente, o chamado é ao retorno ao coração do ministério: conhecer o rebanho, visitar os que estão ausentes, orar pelos que sofrem, ensinar com fidelidade e humildade, e lembrar que o chamado pastoral não foi dado pela instituição, foi dado por Deus, e a Deus se responde.

Juntos à Mesa refletimos que:

o esfriamento espiritual que Jesus profetizou não é inevitável para cada um de nós. É um alerta, não uma sentença. A chama que diminuiu pode ser reacesa não por esforço humano, mas pelo Espírito que ainda sopra onde quer. A pergunta que o Senhor fez a Pedro ressoa para cada crente e cada pastor hoje: "Amas-me?" (Jo 21.17). A resposta sincera a essa pergunta é o único ponto de partida real para qualquer renovação. Que a Igreja brasileira a responda com coragem, e que a resposta se traduza em obras nos bancos do culto, nas salas da EBD, nas visitas que precisam ser feitas, nas orações que precisam ser sustentadas. O primeiro amor ainda é possível. O Senhor que o pediu é o mesmo que o concede.

Referências

BÍBLIA SAGRADA. Almeida Revista e Corrigida. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 2009.

BONHOEFFER, Dietrich. Vida em Comunidade. São Leopoldo: Sinodal, 2003.

CARSON, D.A. O Sermão do Monte: Um Comentário Expositivo. São Paulo: Shedd Publicações, 2010.

KELLER, Timothy. A Fé na Era do Ceticismo. São Paulo: Thomas Nelson, 2020.

SPURGEON, C.H. O Poder da Oração. Rio de Janeiro: CPAD, 2013.

STOTT, John. O Cristão em uma Sociedade Não Cristã. São Paulo: ABU Editora, 1997.

Foto: Samuel Costa Melo in Unsplash