No que cremos e por que cremos
Os cinco pontos arminianos e a identidade soteriológica da Assembleia de Deus
ARTIGOS
Vinicius Gabriel
8/13/20269 min read


Toda comunidade de fé confessa não apenas no que crê, mas também por que crê. A fé cristã não é um salto no escuro, mas uma convicção fundamentada nas Escrituras. O objetivo deste material não é polemizar, mas edificar e ajudar cada irmão, membro e líder a compreender aquilo que professa e por que crê. Como escreve o apóstolo Pedro: "Antes, santifiquem Cristo como Senhor no coração de vocês. Estejam sempre preparados para responder a qualquer pessoa que pedir a razão da esperança que há em vocês, com mansidão e respeito" (1Pe 3.15).
Dentro da proposta deste material, apresentaremos cinco elementos fundamentais da soteriologia arminiana em diálogo com a tradição pentecostal assembleiana: a depravação humana e a graça preveniente; a eleição condicional; a expiação universal ou ilimitada; a graça resistível; e a perseverança condicional.
Ao longo do texto, procuraremos mostrar a fundamentação bíblica dessas afirmações, sua relação com a tradição arminiana e sua importância para a identidade soteriológica das Assembleias de Deus. Também responderemos a algumas objeções frequentemente levantadas contra o arminianismo.
Um resumo da vida de Armínio
O termo "arminiano" deriva de Jacó Armínio (Jacobus Arminius, 1560–1609), teólogo e pastor reformado holandês e professor da Universidade de Leiden. Formado dentro da tradição reformada, Armínio passou a questionar determinadas formulações sobre a predestinação e a graça à medida que aprofundava seu estudo das Escrituras e sua reflexão teológica.
Armínio não pretendia simplesmente abandonar a tradição reformada nem fundar uma nova religião. Sua preocupação estava especialmente relacionada à maneira como determinados entendimentos sobre a predestinação poderiam afetar a justiça de Deus, a responsabilidade humana e a universalidade do chamado do evangelho.
Após sua morte, seus seguidores apresentaram, em 1610, a Remonstrância, documento que sistematizou em cinco artigos as principais questões debatidas entre os remonstrantes e seus opositores. Posteriormente, o Sínodo de Dort (1618–1619) respondeu a essas posições e formulou os conhecidos cinco pontos do calvinismo, posteriormente resumidos pelo acróstico TULIP.
O arminianismo evangélico e o pentecostalismo
É importante distinguir o pensamento de Armínio em seu contexto histórico das formas posteriores do arminianismo. O pentecostalismo clássico recebeu forte influência da tradição wesleyana e do movimento de santidade, que enfatizavam a graça preveniente, a responsabilidade humana, a universalidade da oferta do evangelho e a santidade cristã.
Nesse sentido, a soteriologia pentecostal clássica apresenta forte afinidade com a tradição wesleyana-arminiana. Isso não significa que todas as formulações pentecostais sejam idênticas às de Armínio ou que o termo "arminiano" funcione como uma designação confessional oficial de todas as Assembleias de Deus. A afirmação mais precisa é que a estrutura soteriológica histórica do pentecostalismo clássico, especialmente em sua tradição assembleiana, apresenta características claramente compatíveis com o arminianismo clássico e wesleyano.
As Assembleias de Deus e sua soteriologia
As Assembleias de Deus no Brasil têm sua origem em 1911, com a chegada dos missionários suecos Gunnar Vingren e Daniel Berg a Belém do Pará. O movimento pentecostal do qual eles faziam parte estava inserido em um ambiente teológico marcado por influências da tradição wesleyana e de movimentos de santidade.
Na tradição assembleiana, a pregação do evangelho é apresentada como um convite genuíno dirigido a todos, acompanhado do chamado ao arrependimento, à fé, à santidade e à perseverança. Essa estrutura é coerente com uma compreensão arminiana da salvação, na qual a graça de Deus precede e capacita a resposta humana sem transformar a fé em mérito.
A Declaração de Fé das Assembleias de Deus e obras de teologia pentecostal, como a Teologia Sistemática organizada por Stanley M. Horton, são importantes para compreender a maneira como essa tradição articula a salvação, a graça divina, a fé, a responsabilidade humana e a perseverança cristã.
Por isso, neste material, não afirmamos que a Assembleia de Deus deva ser reduzida a uma escola teológica de Armínio. A afirmação é mais específica: sua tradição soteriológica histórica possui forte afinidade com a perspectiva arminiana, particularmente na compreensão da universalidade da oferta da salvação, da necessidade da resposta de fé, da possibilidade de resistência à graça e da responsabilidade de perseverar na fé.
Os cinco pontos arminianos
Os cinco pontos serão apresentados aqui em uma organização didática, relacionando-os aos cinco artigos da Remonstrância e à compreensão pentecostal assembleiana. A organização adotada é: (1) depravação humana e graça preveniente; (2) eleição condicional; (3) expiação universal; (4) graça resistível; e (5) perseverança condicional.
1. Depravação humana e graça preveniente
O que afirmamos
O ser humano, após a Queda, encontra-se em estado de depravação e, por si mesmo, não possui capacidade de produzir a salvação ou aproximar-se de Deus por mérito próprio (Rm 3.10–12). Arminianos e calvinistas concordam quanto à gravidade do pecado; uma das principais diferenças está na maneira de explicar a atuação da graça de Deus sobre o pecador.
O arminianismo clássico afirma a graça preveniente, isto é, a graça que precede, pela qual Deus, por meio de sua ação graciosa, desperta, convence e capacita o pecador a responder ao evangelho. Assim, ninguém se salva por mérito próprio. A iniciativa continua sendo de Deus, e a resposta de fé somente é possível porque a graça divina a precede.
Base bíblica: Romanos 3.10–11; João 12.32; Tito 2.11; Efésios 2.8–9.
A graça preveniente procura preservar simultaneamente duas verdades: o ser humano não pode salvar-se por si mesmo, e Deus concede graça suficiente para que a pessoa responda ao evangelho. Dessa forma, a fé não é apresentada como uma obra meritória, mas como a resposta à graça de Deus.
2. Eleição condicional
O que afirmamos
Na perspectiva arminiana clássica, a eleição para a salvação é compreendida em relação à fé em Cristo. Deus não escolhe arbitrariamente determinados indivíduos para serem salvos e outros para serem condenados sem qualquer relação com sua resposta à graça. A fé não constitui mérito humano, mas a condição estabelecida por Deus para a participação na salvação.
Uma formulação tradicional do arminianismo entende a eleição em relação à presciência divina: Deus conhece plenamente aqueles que responderão à sua graça e crerão em Cristo. Essa compreensão procura preservar tanto a soberania divina quanto a responsabilidade humana.
Base bíblica: Romanos 8.29; 1 Pedro 1.2.
É importante não transformar a presciência em uma espécie de simples previsão humana. Na teologia arminiana, Deus continua sendo soberano e a salvação continua sendo obra da graça. A fé prevista não é tratada como mérito que obriga Deus a salvar; trata-se da resposta humana possibilitada pela graça.
3. Expiação universal ou ilimitada
O que afirmamos
Cristo morreu por todos os seres humanos, e não somente por um grupo previamente determinado de eleitos. A expiação possui alcance universal, embora sua aplicação salvadora seja recebida mediante a fé.
Essa compreensão sustenta a legitimidade do convite universal do evangelho: o pregador pode anunciar sinceramente a qualquer pessoa que Cristo morreu pelos pecadores e que todo aquele que crê nele pode ser salvo.
Base bíblica: 1 João 2.2; 1 Timóteo 2.4–6; Hebreus 2.9; João 3.16.
Na perspectiva arminiana, esses textos são compreendidos como evidências do alcance universal da obra de Cristo. Isso não significa que todos serão automaticamente salvos, mas que a obra de Cristo não foi limitada a um grupo previamente selecionado de indivíduos.
4. Graça resistível
O que afirmamos
A graça de Deus é poderosa e suficiente para conduzir o pecador à salvação, mas a Escritura também apresenta situações nas quais seres humanos resistem à ação e ao chamado de Deus. Deus não trata a pessoa humana como uma criatura sem responsabilidade moral; sua graça chama, convence e capacita, mas a resposta pode ser rejeitada.
Base bíblica: Atos 7.51; Mateus 23.37; Efésios 4.30.
Em Atos 7.51, Estêvão acusa seus ouvintes de resistirem ao Espírito Santo. Em Mateus 23.37, Jesus lamenta a rejeição de Jerusalém. Para a perspectiva arminiana, esses textos se harmonizam com a compreensão de que a graça divina pode ser resistida pela criatura.
5. Perseverança condicional
O que afirmamos
A perseverança cristã é compreendida em relação à permanência na fé e em Cristo. O crente é verdadeiramente guardado pelo poder de Deus, mas as Escrituras também apresentam advertências contra o abandono da fé. Na perspectiva assembleiana tradicional, a apostasia, entendida como abandono deliberado e persistente de Cristo, é uma possibilidade real contra a qual o crente é exortado a permanecer vigilante.
Base bíblica: 1 Coríntios 10.12; Hebreus 6.4–6; Gálatas 5.4; Apocalipse 2.10; João 15.4–6.
A perseverança condicional não significa que o crente perde a salvação a cada pecado ou falha. A questão é mais profunda: trata-se da possibilidade de abandono deliberado e persistente da fé. A segurança do crente é real e está fundamentada na fidelidade de Deus, ao mesmo tempo em que as Escrituras ordenam que o cristão permaneça em Cristo.
Sintetizando os cinco pontos
Depravação humana + graça preveniente: o ser humano não pode salvar-se por si mesmo, mas a graça de Deus o capacita a responder ao evangelho (Rm 3.10–12; Tt 2.11; Jo 12.32).
Eleição condicional: a eleição é compreendida em relação à fé e à presciência de Deus (Rm 8.29; 1Pe 1.2).
Expiação universal: Cristo morreu por todos, e a obra salvadora é aplicada aos que creem (1Jo 2.2; 1Tm 2.4–6).
Graça resistível: a ação graciosa de Deus pode ser rejeitada pelo ser humano (At 7.51; Mt 23.37).
Perseverança condicional: o crente é chamado a permanecer na fé e em Cristo, levando a sério as advertências bíblicas contra a apostasia (Hb 6.4–6; Ap 2.10).
Algumas objeções ao arminianismo
"O arminianismo ensina salvação por obras."
Essa objeção não representa adequadamente o arminianismo clássico. A salvação é entendida como obra da graça de Deus, recebida mediante a fé (Ef 2.8–9). A graça preveniente precede e capacita a resposta humana. A fé não é considerada um mérito que obrigue Deus a salvar, mas a resposta pela qual o pecador recebe o dom da salvação.
"Se a salvação pode ser perdida, não existe segurança."
Na perspectiva arminiana, a possibilidade de apostasia não elimina a segurança do crente. Quem permanece em Cristo encontra verdadeira segurança na fidelidade de Deus (Jo 10.28–29). As advertências bíblicas são compreendidas como chamadas reais à perseverança, e não como afirmação de que o cristão perde a salvação a cada pecado.
"O arminianismo limita a soberania de Deus."
O arminianismo não entende a liberdade humana como independência absoluta de Deus. A capacidade de responder ao evangelho é concedida pela graça. Assim, a soberania divina não é negada pela responsabilidade humana; ao contrário, a posição arminiana sustenta que Deus soberanamente decidiu salvar por meio da graça recebida pela fé e estabeleceu uma relação real entre sua ação graciosa e a resposta humana.
Juntos à Mesa refletimos que:
Cremos nesses elementos da soteriologia arminiana não por tradição cega, mas porque entendemos que eles oferecem uma leitura coerente do testemunho das Escrituras sobre a graça de Deus e a responsabilidade humana. Cremos que a salvação é iniciativa de Deus, realizada por Cristo, aplicada pela graça e recebida mediante a fé.
A tradição pentecostal clássica, especialmente em sua expressão assembleiana, apresenta uma compreensão da salvação marcada pelo convite universal do evangelho, pela necessidade do arrependimento e da fé, pela santidade cristã e pela perseverança. Por isso, a linguagem arminiana oferece uma ferramenta teológica útil para descrever aspectos importantes da soteriologia histórica das Assembleias de Deus, sem substituir a autoridade das Escrituras nem transformar uma escola teológica em fundamento da fé.
Que este texto sirva para que líderes, professores e membros da Assembleia de Deus possam, com mansidão, respeito e temor de Deus, dar razão da esperança que há em nós (1Pe 3.15), para a edificação da Igreja e para a glória de Deus.
Referências
ARMÍNIO, Jacó. As obras de Armínio. Edições em português e inglês.
ASSEMBLEIA DE DEUS. Declaração de Fé das Assembleias de Deus. Rio de Janeiro: CPAD.
GUNTER, W. Stephen. Arminius and His Declaration of Sentiments: An Annotated Translation with Introduction and Theological Commentary. Waco: Baylor University Press, 2012.
HORTON, Stanley M. (ed.). Teologia sistemática: uma perspectiva pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD.
OLIVEIRA, Jamierson. Arminianismo puro e simples: uma introdução histórico-teológica. Rio de Janeiro: CPAD, 2018.
OLSON, Roger E. Teologia arminiana: mitos e realidades.
VANCE, Laurence M. O outro lado do calvinismo. Edição em português e inglês.
WESLEY, João. Sermões e escritos sobre a graça preveniente e a santificação.
A Remonstrância de 1610 (os Cinco Artigos dos Remonstrantes).
Imagem CPADNEWS
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