Euphoria e o velho estereótipo: o cristianismo realmente julga ou a cultura não quer ser confrontada?

A terceira temporada de Euphoria, exibida pela HBO em 2026, trouxe de volta o universo caótico e visualmente hipnótico de Sam Levinson para as telas com algumas "surpresas" que já não são mais surpresas principalmente para os cristãos.

ARTIGOS

Wender Gabriel

4/15/20267 min read

A terceira temporada de Euphoria, exibida pela HBO em 2026, trouxe de volta o universo caótico e visualmente hipnótico de Sam Levinson para as telas. Entre drogas, relacionamentos fraturados e adolescências em colapso, a série inseriu algo que passou quase despercebido pela crítica especializada mas que merece atenção cuidadosa: um diálogo que coloca o cristianismo no banco dos réus, reduzido a uma religião antiquada, homofóbica e incoerente.

Quem assistiu ao primeiro episódio da terceira temporada pode contemplar dois diálogos que, juntos, constroem o retrato que a série faz do cristianismo. No primeiro, a personagem Lexi declara sem rodeios que não será amiga de uma cristã, numa rejeição que a narrativa apresenta como postura natural e sem maiores consequências dramáticas. No segundo, Rue, vivida por Zendaya, confronta diretamente Ali Muhammad, personagem de Colman Domingo, com perguntas sobre a Bíblia: a Escritura não mandaria matar os gays? Ali responde contextualizando que as proibições do Antigo Testamento estavam inseridas num período específico da história de Israel, marcado por guerra e pela necessidade de sobrevivência do povo, o que tornava qualquer prática fora da reprodução e coesão do grupo algo tratado com severidade extrema. Rue questiona então se ser gay não seria simplesmente "uma distração" dentro dessa lógica.

O conjunto é revelador. Não pela profundidade teológica que demonstra, mas exatamente pela incompletude dela.

O retrato distorcido do cristianismo

Não é de hoje que produções do entretenimento contemporâneo recorrem ao estereótipo do cristão como figura retrógrada, intolerante e obcecada com a vida sexual alheia. O problema não está em retratar personagens cristãs de forma imperfeita, o que seria apenas realismo. O problema está quando a crítica ao cristianismo é construída sobre premissas que qualquer estudante de primeiro ano de teologia saberia refutar.

O diálogo de Euphoria faz exatamente isso. Ele projeta sobre o cristianismo uma leitura fragmentada de textos do Antigo Testamento sem nenhuma mediação hermenêutica adequada, sem nenhum interlocutor cristão competente para responder de forma completa, e sem o mínimo de honestidade intelectual que a série exige de outros temas que aborda. Quando se trata de trauma, vício ou sexualidade, Levinson demonstra capacidade de nuance. Quando o assunto é fé cristã, o roteiro se satisfaz com o rascunho mais preguiçoso disponível.

Julgar ou discernir? O que a Bíblia realmente diz

A acusação mais frequente dirigida ao cristão na cultura popular é a de julgamento. "Não julgue", repetido como mantra secular, geralmente vem acompanhado de uma referência descontextualizada a Mateus 7.1. O que raramente se menciona é que o próprio Jesus, no mesmo contexto, não proíbe o discernimento moral. Ele proíbe a hipocrisia de quem julga o cisco no olho alheio sem enxergar a trave no próprio.

Paulo, em 1 Coríntios 5.12, faz uma distinção fundamental ao perguntar: "Que tenho eu de julgar os que estão fora?" A lógica apostólica é clara. A comunidade cristã exerce discernimento interno sobre seus próprios membros, ao mesmo tempo que não se coloca como tribunal da sociedade em geral. Isso é o oposto do que Euphoria retrata. Na série, ser cristã equivale automaticamente a querer controlar a vida das outras. Essa distorção diz mais sobre os medos culturais do roteirista do que sobre o que o Novo Testamento ensina.

Levítico fora de contexto: o erro mais comum

O recurso ao Levítico como argumento demolidor contra o cristianismo é tão antigo quanto previsível. A série o usa com a leveza de quem nunca abriu um comentário bíblico sequer introdutório. E o que é mais significativo: mesmo a resposta que Euphoria oferece pela boca de Ali Muhammad, ainda que bem-intencionada, é teologicamente insuficiente.

Ali argumenta que a proibição era contextual, ligada à necessidade demográfica e militar de Israel num período de guerra. Esse tipo de leitura existe em círculos acadêmicos seculares e toca num ponto real: o contexto histórico importa para a interpretação bíblica. Mas ela reduz a lei de Deus a uma estratégia de sobrevivência populacional, como se a proibição fosse apenas pragmatismo tribal e não revelação moral. E é justamente aqui que a série revela seu limite teológico mais profundo.

O que o texto bíblico de fato transmite em Levítico 18.22 está inserido no chamado Código de Santidade, o bloco que vai do capítulo 17 ao 26, onde Israel era chamado a ser distinto das nações ao redor, especialmente Egito e Canaã, que praticavam esses atos em contextos de culto religioso pagão. A proibição não era demográfica. Era teológica: separação, pureza e identidade do povo de Deus diante de práticas associadas à idolatria cananeia. Como observa John Stott em A Cruz de Cristo, a lei no Antigo Testamento nunca pode ser lida fora da relação de aliança entre Deus e seu povo, o que lhe confere dimensão moral e não apenas sociológica (STOTT, 1986).

Além disso, o Novo Testamento retoma o tema de forma completamente independente do contexto israelita. Paulo, em Romanos 1, em 1 Coríntios 6 e em 1 Timóteo 1, aborda a questão dentro de uma ética cristã já separada das leis civis e cerimoniais de Israel. Isso derruba definitivamente o argumento de que era apenas uma questão cultural de três mil anos atrás superada pelo tempo. A tradição hermenêutica cristã distingue, desde os primeiros séculos, entre leis cerimoniais, civis e morais do Antigo Testamento, cada uma com função e aplicabilidade distintas no contexto da nova aliança inaugurada por Cristo. O cumprimento da lei por Jesus não é abolição, mas realização que requalifica toda a leitura posterior do texto.

Dizer que "o Levítico manda matar os gays" como argumento final contra o cristianismo seria equivalente a dizer que os Estados Unidos ainda deveriam praticar escravidão porque a Constituição original a permitia. Nenhuma instituição viva é redutível ao pior uso histórico de seus textos fundadores.

O que Jesus realmente ensinou?

Curiosamente ausente dos diálogos de Euphoria é qualquer referência ao que Jesus de Nazaré de fato ensinou. E isso não é acidente. Confrontar a ética de Jesus diretamente é muito mais difícil do que ridicularizar uma leitura fundamentalista de Levítico.

Jesus tocou leprosos quando ninguém o fazia. Dialogou com a samaritana em público, quebrando dois tabus simultâneos de gênero e etnia. Defendeu a mulher apanhada em adultério da pedrada coletiva, ao mesmo tempo que a instruiu a "não pecar mais" (João 8.11), recusando tanto a condenação quanto a cumplicidade com o pecado. Essa tensão é precisamente o que a cultura contemporânea não consegue assimilar: amor sem relativismo moral.

O teólogo Timothy Keller, em O Deus Generoso, descreve essa postura de Jesus como radicalmente diferente tanto do moralismo religioso quanto do relativismo secular. Para Keller, Jesus era escandalosamente inclusivo com pessoas que a sociedade rejeitava e ao mesmo tempo exigia uma transformação de vida que os relativistas modernos achariam intolerável (KELLER, 2008). Nenhuma dessas duas dimensões aparece em Euphoria.

A contradição da própria série

Há uma ironia não intencional nas cenas. A própria conversa entre Rue e Ali Muhammad, ainda que teologicamente incompleta, demonstra que a série reconhece que o texto bíblico exige interpretação e não pode ser reduzido a um slogan. E ao final do episódio, quando uma personagem admite que pessoas religiosas parecem mais felizes e que talvez esteja "faltando algo" nela, a narrativa trai sua própria hostilidade inicial.

É o momento mais honesto de toda a sequência. A série, mesmo sem querer, reconhece o que as pesquisas de bem-estar subjetivo confirmam repetidamente. Robert Putnam e David Campbell, em American Grace, documentam que o engajamento religioso consistente está entre os preditores mais robustos de felicidade, redes de apoio social e senso de propósito (PUTNAM; CAMPBELL, 2010). O dado empírico aparece na boca de uma personagem que acabou de caricaturar a religião. Essa contradição não é falha de roteiro. É sintoma de uma cultura que simultaneamente rejeita o cristianismo e sente a ausência do que ele oferece.

Verdade sem amor é dureza — amor sem verdade é mentira

A frase que Lexi usa para recusar amizade com uma cristã seria inadmissível se substituíssemos "cristã" por qualquer outra identidade religiosa ou étnica. Isso não é uma acusação moral à série. É apenas o registro de um duplo padrão que a crítica cultural raramente nomeia.

O cristão que a cultura popular retrata e o cristão que a tradição teológica forma são figuras muito diferentes. O primeiro é uma caricatura útil para confirmar preconceitos. O segundo é alguém que leva a sério a instrução paulina de "falar a verdade em amor" (Efésios 4.15), reconhecendo que a verdade sem amor se torna dureza e que o amor sem verdade se torna cumplicidade.

Euphoria merece ser assistida. Suas imagens perturbam porque são honestas sobre o que acontece quando uma geração perde o horizonte. Mas a série não merece crédito teológico que não conquistou. Quando reduz o cristianismo a um conjunto de proibições arcaicas e julgamentos morais, ela não está descrevendo a fé cristã. Está descrevendo o medo que muitos têm de ser confrontados por ela.

Juntos à Mesa refletimos que:

o maior problema do retrato de Euphoria não é hostilidade ao cristianismo, mas superficialidade. Uma série capaz de explorar com profundidade a dor humana deveria ser capaz de encontrar ao menos um cristão que soubesse responder às próprias perguntas que a série levanta. Que a fé cristã seja caricaturada é esperável num tempo de analfabetismo teológico generalizado. Que cristãos respondam com profundidade e amor, sem defensividade e sem abrir mão da verdade, é o que a missão sempre exigiu.

REFERÊNCIAS

KELLER, Timothy. O Deus generoso. Tradução de André Flores. São Paulo: Vida Nova, 2008.

LEVINSON, Sam (criador). Euphoria. Temporada 3, episódio 1: "Ándale". Estados Unidos: HBO, 2026.

PUTNAM, Robert D.; CAMPBELL, David E. American Grace: How Religion Divides and Unites Us. New York: Simon & Schuster, 2010.

STOTT, John R. W. A cruz de Cristo. Tradução de Emirson Justino. São Paulo: ABU Editora, 1986.

Imagem: HBO/streaming