"Estudar Demais É Perigoso": A Aversão ao Ensino Teológico nas Igrejas Pentecostais e o Preço que Pagamos por Isso
Há uma desconfiança antiga em relação ao estudo teológico dentro do pentecostalismo brasileiro. Ela se veste de espiritualidade, mas seus frutos são doutrinariamente amargos. É hora de nomear esse problema com coragem.
ARTIGOS
Wender Gabriel
3/28/20266 min read
Você já ouviu alguma dessas frases dentro de uma igreja?
"Cuidado com muito estudo, a letra mata." "Não precisa de teologia, precisa do Espírito Santo." "Irmão fulano estudou muito e perdeu a fé."
Se você frequentou ou frequenta uma congregação pentecostal no Brasil, as chances de ter ouvido ao menos uma delas são altas. Essas expressões não são inocentes. Elas carregam consigo uma cosmovisão que coloca o conhecimento em oposição à espiritualidade e essa falsa dicotomia tem custado caro ao corpo de Cristo.
Uma Herança Ambígua
O pentecostalismo brasileiro nasceu com um ardor evangelístico genuíno e uma ênfase poderosa na experiência direta do Espírito Santo. Desde a chegada dos missionários Vingren e Berg em 1911, o movimento se caracterizou pela oração fervorosa, pelo culto participativo e pelo crescimento numérico explosivo. Isso é real e merece reconhecimento.
Mas, ao lado desse fervor, desenvolveu-se ao longo das décadas uma desconfiança crescente em relação ao estudo formal da Bíblia e da Teologia. O teólogo pentecostal Gutierres Fernandes Siqueira, do blog Teologia Pentecostal, foi preciso ao diagnosticar: "O anti-intelectualismo ainda persiste no pentecostalismo brasileiro. O serviço do ensino é simplesmente desprezado."
O pastor Sergio Cunha, refletindo sobre sua própria trajetória no ambiente pentecostal, relembrou que ouvia constantemente de líderes da época o conselho de que "os estudos destruiriam a sua fé em Jesus" com textos bíblicos utilizados para justificar a posição. Ele concluiu que "os pentecostais ao longo das décadas, salvo algumas exceções, sempre demonstraram aversão ao conhecimento teológico e secular."
O Anti-intelectualismo Disfarçado de Humildade
O problema mais grave não é a ignorância simples é a ignorância envernizada de virtude. Como descreveu o escritor Victor Romão, em artigo recente: "Essa aversão não se apresenta como ignorância explícita ela se veste de espiritualidade. Ela cita versículos. Ela apela para o perigo do orgulho intelectual. Ela transforma a simplicidade do Evangelho em desculpa para a preguiça mental."
O versículo mais mal usado nesse contexto é 2 Coríntios 3.6: "a letra mata, mas o Espírito vivifica." Arrancado do contexto, esse texto se torna uma justificativa para o analfabetismo bíblico. Mas Paulo falava ali especificamente sobre a Lei Mosaica e sua incapacidade de salvar não sobre o estudo das Escrituras. O próprio Paulo, o autor dessas palavras, era o cristão mais estudado do Novo Testamento, formado aos pés de Gamaliel (Atos 22.3) e capaz de citar poetas gregos em seu sermão no Areópago (Atos 17.28).
E qual é o paradoxo? Paulo também escreveu em Romanos 12.2: "Não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente." A renovação da mente não acontece no vácuo ela exige estudo, reflexão e aprofundamento.
O Ensino Como Dom Espiritual Negligenciado
Há outro problema que raramente é apontado: nas igrejas pentecostais, o ensino não é tratado como um dom espiritual de primeira grandeza. Siqueira aponta com precisão: "Os pentecostais esquecem que o ensino bíblico é um dom espiritual. Paulo em Romanos 12.6-7 coloca o dom de ensinar ao lado do dom de profetizar."
De fato, em Efésios 4.11-12, Paulo lista o ministério de pastor-mestre como um dos cinco dons ministeriais dados por Cristo à Igreja, com a finalidade específica de "equipar os santos para a obra do ministério." Uma igreja que despreza o ensino está, portanto, negligenciando uma das ferramentas centrais que Cristo deu para edificar o seu corpo.
A pesquisa acadêmica de Claiton Ivan Pommerening, em sua tese de doutorado intitulada "Fábrica de Pastores: Interfaces e Divergências entre Educação Teológica e Fé Cristã Comunitária na Teologia Pentecostal" (Faculdades EST, 2015), documenta como os institutos bíblicos pentecostais, ao priorizarem a prática ministerial em detrimento da formação teológica sólida, acabam gerando líderes despreparados para enfrentar os desafios doutrinários contemporâneos.
O Artigo da Revista Davar: Anti-Intelectualismo Identificado
Um artigo publicado na Revista Davar Polissêmica, da Faculdade Batista de Minas Gerais, intitulado "Análise e Desafios da Contribuição Teológica do Pentecostalismo no Brasil", realizado por um doutor em Estudos Interculturais pelo Fuller Theological Seminary (Pasadena, EUA), examina exatamente esse problema. O estudo reconhece a "situação periférica da teologia no contexto pentecostal" e os desafios do anti-intelectualismo, concluindo pela necessidade de "superar esses desafios para promover uma contribuição teológica mais sólida e abrangente."
A Revista Ultimato, em artigo da mestra em teologia Regina Fernandes Sanches, também abordou as tensões da educação teológica no Brasil, apontando que os institutos bíblicos pentecostais surgiram justamente como "uma reação ao que chamavam de academicismo dos seminários históricos" o que revela que essa tensão foi, desde o início, estrutural e ideológica.
O Medo Legítimo e a Resposta Equivocada
É necessário ser honesto: o medo da teologia nas igrejas pentecostais não é completamente sem fundamento. Victor Romão reconhece isso: "Às vezes é medo legítimo. Existem instituições teológicas ruins que promovem liberalismo teológico e enfraquecem a fé dos alunos." Há, de fato, teólogos que usaram o estudo para desconstruir a fé ao invés de edificá-la.
Mas o remédio para a medicina ruim não é abandonar a medicina. É buscar a medicina boa. O remédio para a teologia fraca não é a ignorância é a teologia sólida. Como o próprio Romão conclui: "Condenar a teologia por causa de teólogos ruins é como condenar a medicina por causa de médicos incompetentes."
O Que a Bíblia Diz Sobre o Uso da Mente?
A Escritura nunca colocou fé e razão em oposição. Jesus, ao ser questionado sobre o maior mandamento, respondeu em Mateus 22.37: "Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento." O entendimento a mente faz parte do amor a Deus.
Provérbios 4.7 afirma: "O principal de tudo é a sabedoria; adquire sabedoria, e com tudo o que possuis adquire entendimento." Oséias 4.6 é ainda mais alarmante: "O meu povo foi destruído porque lhe faltou o conhecimento." A ignorância doutrinal não é neutralidade espiritual é vulnerabilidade.
E há uma palavra de Paulo que deveria ser pregada em todo seminário e EBD: "Esforça-te por apresentares a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade" (2 Timóteo 2.15). "Manejar bem" exige estudo, exegese, conhecimento do contexto.
Um Caminho de Saída
A solução não é abandonar a espiritualidade pentecostal sua ênfase no Espírito Santo, sua oração intensa, seu ardor missionário são dons preciosos. A solução é integrá-la ao amor pelo conhecimento da Palavra.
Gordon D. Fee, pastor das Assembleias de Deus e um dos maiores estudiosos do Novo Testamento do século XX, demonstrou que é perfeitamente possível ser pentecostal e rigorosamente acadêmico. Roger Stronstad, com sua obra The Charismatic Theology of St. Luke, abriu caminhos para uma hermenêutica pentecostal séria e fundamentada. Esses nomes mostram que a escolha entre Espírito e estudo é falsa.
O que precisamos, nas nossas congregações locais, é de:
1. Pastores que estudem e incentivem o estudo. Um pastor que nunca leu um livro de teologia além da Bíblia enviará sinais silenciosos de que estudar não é importante. Liderança modela cultura.
2. EBDs que levem a sério o ensino bíblico. A Escola Bíblica Dominical foi historicamente o principal instrumento de formação doutrinária no protestantismo popular. Nas últimas décadas, perdeu espaço e profundidade. Precisamos recuperar isso.
3. Incentivo à formação teológica formal. Cursos de teologia, institutos bíblicos sérios, faculdades como a FEICs e a UFMT são espaços onde fé e razão podem dialogar. Enviar jovens e líderes para esses espaços é investimento, não risco.
4. Desmistificação do "intelectual orgulhoso." Nem todo aquele que estuda se torna soberbo. Muitos dos mais humildes servos de Deus da história foram também os mais estudados. A soberba vive no coração, não nos livros.
Juntos à Mesa refletimos que:
Há uma frase atribuída a Agostinho de Hipona que resume bem o que queremos dizer: "Nosso coração está inquieto até que descanse em Ti." Mas o mesmo Agostinho escreveu confissões, tratados, cartas e obras teológicas que ainda hoje formam cristãos. Para ele, o descanso em Deus não excluía o esforço de compreendê-Lo.
Uma igreja que teme o conhecimento não está protegendo a fé está enfraquecendo-a. E uma fé que não resiste ao questionamento honesto não era tão sólida assim.
Estudar é uma forma de amar a Deus. E esse amor com toda a mente é exatamente o que Ele nos pediu.