É Hora de um Novo Lutero? Uma Proposta de Reforma Litúrgica para as Assembleias de Deus no Brasil

Quando o culto vira roteiro e a Palavra de Deus é espremida entre avisos e apelos financeiros, algo precisa mudar. Este artigo nasce de uma inquietação real e apresenta uma proposta concreta de reforma litúrgica fundamentada na Bíblia.

ARTIGOS

Wender Gabriel

3/31/20268 min read

a person writing on a book
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Em 31 de outubro de 1517, um monge agostiniano teólogo e professor universitário em Wittenberg, mais conhecido pelo nome que a história imortalizou, Martinho Lutero, afixou noventa e cinco teses na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg, na Alemanha. Naquele ato, não havia revolta pelo prazer da rebeldia. Havia dor. Havia amor pela Igreja. Havia a convicção de que algo havia desviado do caminho, e que era preciso dizer isso em voz alta, ainda que custasse caro. A Reforma Protestante que se seguiu não foi apenas um evento político ou eclesiástico, foi um grito do Espírito Santo por meio de um homem que se recusou a calar o que via.

Séculos depois, olhando para o interior das Assembleias de Deus no Brasil e, especialmente, para os cultos que acontecem todo domingo em milhares de templos espalhados por este país, surge uma inquietação semelhante. Não a mesma em tamanho, não a mesma em contexto. Mas semelhante na essência: algo está desviando. E é preciso dizer isso com amor, com respeito e com respaldo bíblico.

O culto que temos: um diagnóstico honesto

A Assembleia de Deus nasceu como um movimento de fogo. Fundada no Brasil em 1911, em Belém do Pará, pelos missionários suecos Gunnar Vingren e Daniel Berg, a denominação foi forjada no calor da oração, da pregação da Palavra e da expectativa do derramamento do Espírito Santo. O culto era o espaço sagrado do encontro entre Deus e o seu povo.

O que se observa hoje, contudo, em muitas congregações, e esta não é uma crítica sem fundamento, mas uma leitura dolorida de quem ama a casa, é uma liturgia que se tornou, em muitos casos, mais roteiro do que experiência. A estrutura típica do culto assembleiano contemporâneo segue, com raras variações, o seguinte curso: oração inicial, três hinos da Harpa Cristã, leitura bíblica introdutória, oportunidades para os departamentos, conjunto de adolescentes, jovens, varões, mocidade, coral, testemunhos ocasionais, avisos institucionais, apelos financeiros recorrentes e, por fim, quase como apêndice, a pregação da Palavra de Deus, frequentemente restrita a vinte, trinta ou, em alguns casos, apenas dez minutos.

O problema não está nos hinos da Harpa, que são um patrimônio espiritual inestimável. O problema não está nos testemunhos, nem nos departamentos. O problema está na ordem das prioridades e, de maneira ainda mais contundente, na prática que tem se tornado endêmica em muitas igrejas: a ênfase excessiva e repetitiva nos apelos financeiros, nos dízimos apresentados com promessas de bênçãos materiais, no pragmatismo que transforma o culto a Deus em uma experiência de mercado religioso.

Isso não é julgamento. É observação. É a mesma observação que fazem tantos jovens que, silenciosamente, deixam os bancos das nossas igrejas.

O que os números dizem sobre o silêncio dos jovens?

Os dados do Censo Demográfico 2022 do IBGE confirmam o que muitos pastores já sentiam: os evangélicos são o grupo religioso que mais cresceu entre 2010 e 2022 na população brasileira. Mas esse crescimento geral esconde uma sangria silenciosa dentro das próprias denominações pentecostais. Pesquisas apontam que a desvinculação religiosa entre os jovens é maior do que a adesão ao pentecostalismo, o que significa que a torneira de entrada não está compensando o ralo de saída.

O instituto Barna Group, referência em pesquisas sobre comportamento religioso, revelou que três de cada cinco jovens cristãos se afastam da fé e abandonam suas igrejas de origem, geralmente por volta dos 15 anos. Entre os motivos levantados pela pesquisa, destaca-se algo que ressoa diretamente com o que se vê nas assembleias: muitos jovens adultos sentem que sua experiência do cristianismo é superficial, pouco intensa, e que Deus parece estar ausente de sua experiência de igreja.

No cenário global, um fenômeno adicional chama atenção: jovens protestantes que buscam algo mais substancial têm gravitado em direção à missa católica, atraídos pelos aspectos estéticos e espirituais dos cultos. Isso é sintomático. Quando um jovem criado na tradição pentecostal encontra mais profundidade espiritual em uma liturgia que ele sequer conhecia do que no culto onde cresceu, algo precisa ser revisitado com urgência.

O que a Bíblia diz sobre o culto?

A crítica só tem valor se ancorada na Palavra. E a Palavra é abundante nesse tema.

O apóstolo Paulo, ao escrever aos Romanos, estabelece a natureza do culto verdadeiro: "Portanto, irmãos, rogo-vos pelas misericórdias de Deus que apresenteis os vossos corpos como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional" (Rm 12.1). O culto, no pensamento paulino, não é um programa a ser cumprido. É uma entrega. É uma resposta ao que Deus fez.

E o que produz essa resposta? Paulo é igualmente claro: "A fé vem pelo ouvir, e o ouvir, pela palavra de Cristo" (Rm 10.17). Não é o louvor que gera fé. Não são os avisos que transformam corações. Não são os apelos financeiros que convencem o pecador do seu estado diante de Deus. É a Palavra. Sempre foi a Palavra.

O próprio Paulo, ao instruir Timóteo sobre o ministério, coloca a pregação no centro absoluto: "Pregue a palavra, insista em tempo oportuno e fora de tempo, repreenda, corrija, exorte com toda a paciência e doutrina" (2 Tm 4.2). Esse mandato não tem prazo de validade e não cabe em dez minutos espremidos no final de um culto de duas horas.

Na tradição do Antigo Testamento, Neemias e Esdras nos deixam um modelo poderoso: "Esdras abriu o livro à vista de todo o povo e quando o abriu, todo o povo se pôs em pé" (Ne 8.5). A Palavra veio primeiro. A adoração veio como resposta, "Todo o povo respondeu: Amém! Amém!" (Ne 8.6), e prostrou-se diante do Senhor. A sequência bíblica é clara: Palavra primeiro, adoração depois.

Na igreja primitiva, descrita nos Atos dos Apóstolos, o padrão era consistente: "Perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações" (At 2.42). A doutrina, o ensino da Palavra, vinha em primeiro lugar. Não por acaso, mas por convicção teológica.

O que dizem os pensadores?

O teólogo pentecostal Gordon D. Fee, em sua obra Gospel and Spirit, enfatiza que a experiência genuína do Espírito Santo nunca ocorre em oposição à Palavra, mas sempre em harmonia com ela. Para Fee, o pentecostalismo saudável é aquele que mantém a tensão criativa entre a letra e o Espírito e quando essa tensão se perde em favor de experiências vazias ou programas repetitivos, a espiritualidade se empobrece.

John Stott, um dos maiores pregadores do século XX, defendia com vigor que a pregação bíblica é o ato central do culto cristão. Em sua obra A Pregação como Ponte entre Dois Mundos, Stott argumenta que o pregador é um construtor de pontes entre o texto sagrado e o mundo contemporâneo e que quando essa ponte desaparece, o povo fica sem direção.

No contexto brasileiro, o sociólogo Ricardo Mariano, em Neopentecostais: Sociologia do Novo Pentecostalismo no Brasil, aponta preocupações sobre como a adaptação ao mercado religioso transformou o culto em algumas igrejas em um espaço de oferta e demanda, onde o fiel é tratado como consumidor e a bênção como produto. Essa lógica, quando infiltra a liturgia, transforma o culto a Deus em um programa de fidelidade e isso não é o Evangelho.

O teólogo Amos Yong, ao analisar o pentecostalismo global, reconhece a enorme capacidade de adaptação cultural do movimento, mas alerta que essa adaptação, quando não temperada por uma ancoragem teológica sólida, pode levar o movimento a perder sua identidade histórica, especialmente no que diz respeito à centralidade da Palavra e à santidade de vida.

A necessidade de um novo Lutero e o que isso significa

Falar em "um novo Lutero" não é falar em ruptura pela ruptura. Lutero não queria destruir a Igreja. Ele queria reformá-la. Da mesma forma, o clamor que nasce no coração de muitos fiéis das Assembleias de Deus hoje não é um clamor de abandono, é um clamor de amor.

O que precisamos não é de um homem com noventa e cinco teses pregadas em uma porta. O que precisamos é de pastores, líderes, diáconos e membros dispostos a fazer a pergunta incômoda: este culto está glorificando a Deus ou cumprindo um roteiro? E, feita essa pergunta, ter a coragem de agir.

Os reformadores do século XVI nunca tiveram a intenção de estabelecer uma nova Igreja. Eles queriam reformar a que existia, restaurando o padrão bíblico de culto, doutrina e vida cristã. O mesmo espírito precisa animar os que hoje se levantam dentro das Assembleias de Deus.

Uma proposta litúrgica concreta

A proposta que se apresenta aqui não é uma imposição, nem uma crítica destrutiva. É uma sugestão nascida da leitura bíblica e do amor pela Igreja.

1. A Palavra de Deus em primeiro lugar. Que a pregação seja o eixo central do culto, com tempo digno, não dez minutos, mas o espaço que a Palavra merece. Que o texto bíblico seja aberto, explicado e aplicado antes de qualquer outra coisa.

2. O louvor como resposta. Depois de ouvir a Palavra, o coração do crente está pronto para adorar de verdade. O louvor que vem depois de uma pregação poderosa não é protocolo, é explosão. Que os conjuntos, os hinos e a música sejam o fruto de um coração já tocado pela Palavra, e não uma preparação emocional para compensar a ausência dela.

3. A oferta como ato de adoração, não de pressão. Que os apelos financeiros sejam feitos com a dignidade que a Palavra ordena, "Cada um contribua segundo decidiu em seu coração, não com tristeza nem por necessidade, porque Deus ama o que dá com alegria" (2 Co 9.7). Sem promessas manipuladoras. Sem pressão. Sem repetição exaustiva.

4. Os avisos e assuntos administrativos ao final. Informações institucionais são necessárias, mas não são culto. Que sejam tratadas no tempo e no lugar adequados, ao final, de forma breve e objetiva.

5. A bênção apostólica como encerramento. Que o povo saia do culto carregando a bênção, enviado, não apenas entretido.

Juntos à Mesa refletimos que:

A Assembleia de Deus é uma das expressões mais ricas e vitais do protestantismo brasileiro. Sua história é uma história de fogo, de sacrifício, de missão e de presença do Espírito Santo. Nada do que foi dito neste artigo diminui esse legado, pelo contrário, é exatamente o amor por esse legado que move cada palavra aqui escrita.

Mas amar uma instituição não significa fechar os olhos para os seus desvios. Martinho Lutero amava a Igreja. Foi por isso que afixou as teses. Os profetas de Israel amavam o povo de Deus. Foi por isso que falaram palavras duras. E nós, que congregamos nas Assembleias de Deus, que ensinamos nas suas Escolas Bíblicas, que choramos nos seus altares e que crescemos na fé dentro de seus muros, nós também amamos essa Igreja. E é por amor que dizemos: é hora de revisitar o culto.

Não para copiar o mundo. Não para ser moderno. Mas para ser bíblico. A Palavra de Deus precisa voltar ao centro do culto assembleiano, não como convidada, espremida entre avisos e apelos, mas como anfitriã. Porque é ela que produz fé. É ela que convence do pecado. É ela que transforma. É ela que retém os jovens. É ela que enche os bancos, não de entretenimento religioso, mas de vida.

"Pregue a palavra." (2 Tm 4.2). Essa ordem não foi revogada.

Referências

BARNA GROUP. You Lost Me: Why Young Christians Are Leaving Church and Rethinking Faith. David Kinnaman. Grand Rapids: Baker Books, 2011.

FEE, Gordon D. Gospel and Spirit: Issues in New Testament Hermeneutics. Peabody: Hendrickson, 1991.

MARIANO, Ricardo. Neopentecostais: Sociologia do Novo Pentecostalismo no Brasil. São Paulo: Loyola, 2014.

STOTT, John. Eu Creio na Pregação. São Paulo: ABU Editora, 1984.

YONG, Amos. The Spirit Poured Out on All Flesh: Pentecostalism and the Possibility of Global Theology. Grand Rapids: Baker Academic, 2005.

VINGREN, Ivar. O Diário do Pioneiro: Gunnar Vingren. Rio de Janeiro: CPAD, 2000.

BÍBLIA SAGRADA. Versão Almeida Revista e Corrigida.

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