Adão, Salomão, Davi e os "dois pais" de Jesus: resposta ponto a ponto a Leandro Karnal

A afirmação analisada foi publicada por Leandro Karnal em seu perfil no Instagram (@leandro_karnal), em 23 de agosto de 2026, como legenda de trecho do podcast Platitudes, que ele apresenta ao lado de Gabriela Prioli.

ARTIGOS

Wender Gabriel

8/30/202612 min read

Foto: Instagram @leandro_karnal, 24 ago. 2026.

Em publicação recente no Instagram, sob o título "Família tradicional. Tradicional onde?", o historiador Leandro Karnal retomou uma tese que já circula com força nas redes: a de que não existe nas Escrituras um modelo de família tradicional. O argumento vem bem montado, como sempre vem quando ele o formula. A primeira família termina em expulsão e fratricídio, Salomão manteve um harém de mil mulheres, Davi na velhice dormia com uma jovem, e o próprio Jesus, segundo ele, teria tido dois pais.

Já respondemos aqui a essa tese pelo lado do método. Agora tratamos dos exemplos, um por um, porque é neles que o argumento parece forte e é neles que ele se desfaz.

Antes de entrar nos casos, é preciso fixar a régua. Sem ela, nada do que segue faz sentido.

A régua que decide tudo

A Escritura narra muito mais do que aprova. A literatura narrativa hebraica quase nunca interrompe a história para dizer "isso foi errado". Ela mostra o erro e mostra o que o erro produz. Quem lê sem essa chave conclui que a Bíblia endossa tudo que registra, e aí o texto vira um espelho da opinião de quem lê.

O critério, portanto, não é "o que a Bíblia narra?", e sim "como a Bíblia avalia o que narra?". Esse critério não é uma invenção apologética de conveniência. É o critério que o próprio Jesus aplica em Mateus 19, quando os fariseus lhe apresentam a prática vigente e ele responde: "mas no princípio não foi assim" (Mt 19.8). Jesus distingue, dentro da mesma Escritura, o que foi permitido por causa da dureza do coração e o que foi instituído desde o princípio. Se essa distinção é ilegítima, o problema não é com a Mesa Teológica. É com Cristo.

Vamos aos pontos.

Ponto 1: "Adão e Eva foram expulsos do jardim e Caim matou Abel. Isso é família tradicional?"

Não. E a Bíblia foi a primeira a dizer isso.

Repare na sequência do texto, porque a ordem dos capítulos é o argumento.

A norma vem antes da ruptura. Em Gênesis 2, ainda no jardim, antes de qualquer queda, o narrador estabelece a instituição:

"Portanto, deixará o homem a seu pai e a sua mãe e se unirá à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne." (Gn 2.24)

Isso é uma etiologia, ou seja, o texto está explicando ao leitor a origem de uma prática que ele já conhece. Note os elementos: saída da casa paterna, união conjugal, exclusividade numérica ("os dois"), unidade permanente ("uma só carne"). O modelo está posto no capítulo dois. Ele não aparece depois como reação a nada.

A expulsão e o fratricídio vêm depois, e vêm como consequência. Gênesis 3 e 4 não descrevem a ausência de um modelo. Descrevem o rompimento do modelo que acabou de ser instituído. E o texto marca isso explicitamente. A própria sentença em Gênesis 3.16 anuncia que a relação entre homem e mulher passará a operar por disputa e domínio, o que é a descrição de uma patologia, não de um projeto.

A primeira poligamia da Bíblia é apresentada com sinal negativo. E isso é decisivo:

"Lameque tomou para si duas mulheres: o nome de uma era Ada, e o da outra, Zilá." (Gn 4.19)

Lameque é descendente de Caim, está na genealogia do fratricida, e as primeiras palavras dele registradas na Escritura são uma gabolice de vingança desproporcional: "por um homem matei, e por um rapaz feri" (Gn 4.23-24). O narrador coloca a bigamia e a jactância assassina no mesmo personagem, na mesma linhagem, em versículos seguidos. Isso não é neutralidade. É juízo literário.

Ou seja, o argumento se apoia em Gênesis 3 e 4 e ignora Gênesis 2. Pega o diagnóstico e apresenta como se fosse a receita.

Ponto 2: "Salomão teve setecentas mulheres e trezentas concubinas. Isso é família tradicional?"

Também não. E aqui o caso é ainda mais desfavorável ao argumento, porque Salomão não apenas é reprovado pelo narrador. Ele viola uma lei escrita que já existia antes dele.

A proibição é anterior e é explícita. Deuteronômio 17 traz a legislação do rei, e o texto é literal:

"Tampouco multiplicará para si mulheres, para que o seu coração não se desvie." (Dt 17.17)

Existe uma norma. Ela está escrita. Ela veta exatamente o que Salomão faria.

O narrador registra o número e imediatamente registra a condenação. Os dados citados estão em 1 Reis 11, mas a citação para no versículo 3. O texto continua:

"Tinha setecentas mulheres, princesas, e trezentas concubinas; e suas mulheres lhe perverteram o coração. Sendo já velho Salomão, suas mulheres lhe perverteram o coração para seguir outros deuses; e o seu coração não era de todo fiel para com o Senhor, seu Deus." (1 Rs 11.3-4)

"Fez Salomão o que era mau perante o Senhor." (1 Rs 11.6)

A consequência narrativa é a destruição do reino. Deus anuncia a Salomão que o reino será rasgado da sua mão por causa disso (1 Rs 11.11-13). O harém não é um detalhe pitoresco de contexto oriental. É a causa declarada da divisão de Israel, o maior trauma político da história do Antigo Testamento.

E a tradição posterior o cita como exemplo negativo. Séculos depois, Neemias usa Salomão como advertência:

"Não pecou nisto Salomão, rei de Israel? Bem que entre muitas nações não houve rei semelhante a ele, que era amado do seu Deus, e Deus o constituiu rei sobre todo o Israel, contudo as mulheres estrangeiras o fizeram pecar." (Ne 13.26)

Portanto, quando alguém pergunta "isso é a família tradicional da Bíblia?", a resposta correta é: a própria Bíblia diz que não, e diz três vezes, em três livros diferentes, com o reino partido ao meio como prova.

Ponto 3: "Davi, aos noventa anos, dormia com uma menina no peito"

Aqui há três erros de fato em uma frase só. Vamos por partes.

Erro um: a idade. Davi não tinha noventa anos. A Escritura fecha a conta:

"Trinta anos tinha Davi quando começou a reinar; e quarenta anos reinou." (2 Sm 5.4)

"Foram os dias que Davi reinou sobre Israel quarenta anos." (1 Rs 2.11)

Trinta mais quarenta são setenta. Davi morre aos setenta anos, e a cena acontece no fim desse período. A diferença de vinte anos não é detalhe. Ela existe justamente para reforçar a imagem de decrepitude e tornar a acusação mais chocante.

Erro dois: a localização do texto. O episódio não está em algum lugar impreciso entre Primeiro e Segundo Reis. Está em 1 Reis 1.1-4, na abertura exata do livro.

Erro três, e é o que derruba tudo: o próprio texto nega a relação sexual. Leia o episódio inteiro, porque ele tem quatro versículos e o quarto é o que ninguém cita:

"Sendo, pois, o rei Davi já velho e entrado em dias, cobriam-no de roupas, porém não se aquecia. Então, disseram-lhe os seus servos: Busquem para o rei, nosso senhor, uma jovem donzela, que esteja perante o rei, e tenha cuidado dele, e durma no seu seio, para que o rei, nosso senhor, se aqueça. Buscaram, pois, por todos os limites de Israel uma jovem formosa; e acharam a Abisague, sunamita, e a trouxeram ao rei. Era a jovem sobremaneira formosa; cuidava do rei e o servia, porém o rei não a possuiu." (1 Rs 1.1-4)

A expressão hebraica ali é lo yeda'ah, literalmente "não a conheceu", que é o idiomatismo padrão do hebraico bíblico para relação sexual. O narrador podia ter ficado calado. Ele escolheu registrar explicitamente que não houve relação. Ou seja, a acusação que se pretende fazer contra o texto já está respondida dentro do texto, quatro versículos depois de começar o livro.

Vale acrescentar três observações que completam o quadro.

Primeira, a iniciativa é dos servos, não de Davi. O rei não pede nada. É uma medida de cuidado geriátrico proposta pela corte a um homem que já não conserva calor corporal.

Segunda, o texto não informa a idade de Abisague. O termo é na'arah, moça em idade núbil, que na sociedade israelita designa a jovem apta ao casamento. Chamá-la de "adolescente" no sentido moderno é acrescentar ao texto um dado que ele não fornece, para produzir uma reação que ele não autoriza.

Terceira, e mais importante, a função literária da cena não tem nada a ver com sexo. Ela existe para provar que Davi está incapacitado, abrindo a crise de sucessão que ocupa todo o restante de 1 Reis 1 e 2. Tanto é assim que, mais adiante, quando Adonias pede Abisague em casamento, Salomão entende o pedido como tentativa de golpe e o manda executar (1 Rs 2.13-25). Abisague é uma peça na disputa pelo trono. Quem lê o episódio como escândalo sexual não errou apenas a interpretação, errou o assunto.

Uma honestidade necessária. Davi foi polígamo, sim (2 Sm 3.2-5; 5.13), e cometeu adultério e homicídio no caso de Bate-Seba. E qual é o veredicto do texto? Natã o confronta na cara e anuncia a sentença: "agora, pois, não se apartará a espada da tua casa" (2 Sm 12.10). E o livro passa os capítulos seguintes mostrando a sentença cumprir-se: estupro de Tamar por Amnom, assassinato de Amnom por Absalão, golpe de Estado, e as concubinas de Davi tomadas publicamente por Absalão (2 Sm 16.21-22), em cumprimento literal de 2 Samuel 12.11.

A casa polígama do rei se autodestrói ao longo de vários capítulos, e o narrador atribui isso diretamente ao pecado do rei. Isso não é ausência de modelo. É a demonstração narrativa mais longa do Antigo Testamento sobre o que acontece quando o modelo é abandonado.

Ponto 4: "Jesus tinha dois pais"

Este é o único ponto que não é erro factual. É erro lógico, e tem nome técnico: equívoco, ou quaternio terminorum. A palavra "pai" é usada em dois sentidos completamente distintos, e depois os dois sentidos são somados como se fossem da mesma categoria.

José é pai em sentido jurídico e social. O anjo lhe diz: "José, filho de Davi, não temas receber Maria, tua mulher" e ordena que ele dê o nome ao menino (Mt 1.20-21). Nomear, na cultura judaica, é o ato jurídico de reconhecimento da paternidade. É por José que Jesus entra na linhagem davídica, e é por isso que Lucas registra a ressalva técnica: "Jesus... como se supunha, filho de José" (Lc 3.23).

Deus é Pai em sentido teológico e ontológico. "Descerá sobre ti o Espírito Santo, e o poder do Altíssimo te envolverá com a sua sombra; por isso, também o ente santo que há de nascer será chamado Filho de Deus" (Lc 1.35). Não há aqui uma segunda paternidade doméstica. Há a afirmação da encarnação.

Somar as duas e concluir "logo, dois pais no sentido familiar" é o mesmo tipo de raciocínio de quem diz que uma pessoa tem duas mães porque tem uma mãe e uma pátria mãe. As palavras coincidem. As categorias, não.

E há uma ironia que fecha o ponto. O texto que supostamente prova a inexistência da família tradicional descreve, na verdade, exatamente uma família tradicional. Nos evangelhos aparecem um pai, uma mãe e filhos, vivendo sob o mesmo teto. José foge para o Egito com a mulher e o menino e depois retorna com eles (Mt 2.13-14, 19-21). Em Lucas 2.41-52, os dois sobem a Jerusalém e o texto se refere a eles literalmente como "seu pai e sua mãe". E a vizinhança de Nazaré identifica a casa com naturalidade: "não é este o filho do carpinteiro? e não se chama sua mãe Maria, e seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas? e não estão entre nós todas as suas irmãs?" (Mt 13.55-56; cf. Mc 6.3).

Uma casa com pai, mãe e filhos. É esse o retrato.

E o que a Escritura de fato prescreve?

A tese diz que não existe modelo. A resposta mais simples é apontar onde o modelo está escrito, em forma de norma e não de narrativa.

Na criação: "tornando-se os dois uma só carne" (Gn 2.24).

Nos profetas: Malaquias condena o repúdio da esposa da juventude e fundamenta a monogamia na intenção criacional: "não fez ele um só, ainda que lhe sobejava espírito? E por que somente um? Para buscar uma descendência piedosa" (Ml 2.15).

Em Cristo: "não tendes lido que o Criador, desde o princípio, os fez homem e mulher e que disse: por esta causa deixará o homem pai e mãe e se unirá a sua mulher, tornando-se os dois uma só carne? De modo que já não são mais dois, porém uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem" (Mt 19.4-6; cf. Mc 10.6-9). Aqui não há narrativa, há mandamento, no imperativo.

Nos apóstolos: "cada um tenha a sua própria esposa, e cada uma, o seu próprio marido" (1 Co 7.2). "Digno de honra entre todos seja o matrimônio, e o leito conjugal, sem mácula" (Hb 13.4). E, para a liderança na igreja, a exigência explícita de monogamia: "é necessário, portanto, que o bispo seja... esposo de uma só mulher" (1 Tm 3.2; cf. 1 Tm 3.12 e Tt 1.6). O grego é mias gynaikos andra, homem de uma só mulher.

Um modelo que atravessa a criação, os profetas, o ensino de Jesus e a legislação apostólica não é uma invenção burguesa do século XIX.

Onde exatamente o argumento falha

Vale nomear os erros, porque quem entende o mecanismo não cai nele de novo.

Confusão entre descrever e prescrever. O erro central. Todos os exemplos citados são narrativas, e nenhum deles é apresentado pelo texto com aprovação. Ao contrário, todos aparecem com condenação explícita ou com consequência catastrófica narrada.

Seleção conveniente da evidência. Cita 1 Reis 11.3 e não cita 11.4, 11.6 e 11.11. Cita 1 Reis 1.2 e não cita 1.4. O verso seguinte, nos dois casos, é justamente o que desmonta a acusação.

Equívoco de termos. "Pai" jurídico e "Pai" divino tratados como se fossem a mesma coisa.

Espantalho. E aqui é preciso ser justo, porque há um ponto verdadeiro dentro do argumento. Se por "família tradicional" se entende a família nuclear suburbana do século XX, então de fato ela não existe na Bíblia. A estrutura doméstica israelita é o bet av, a casa do pai, uma unidade extensa com várias gerações, agregados e servos sob o mesmo teto. Nisso Karnal tem razão, e reconhecer isso não custa nada. Só que essa não é a questão em disputa. Ninguém está afirmando que a Bíblia prescreve casas de três quartos e dois filhos. A questão é se existe uma norma conjugal, um homem e uma mulher em união exclusiva e permanente. Essa existe, está escrita, e está citada acima. O argumento derruba uma tese que ninguém defendeu e declara vitória sobre a que ficou de pé.

Falsa neutralidade metodológica. O historiador descreve o que aconteceu em Israel. Ele não dispõe, por método, de instrumento para decidir o que o texto sagrado prescreve, porque isso exigiria tratar o texto como norma, e tratar o texto como norma é precisamente o que a postura adotada exclui de saída. Não é uma crítica pessoal. É um limite epistemológico do ofício.

Juntos à Mesa refletimos que:

A Bíblia é o livro sagrado mais honesto do mundo antigo. Ela não maquia seus personagens. Registra o fratricídio na primeira família, a bigamia jactanciosa de Lameque, o harém idólatra de Salomão, o adultério e o homicídio de Davi, e faz isso sem pedir desculpas. Essa honestidade é uma virtude do texto, não uma fragilidade dele, e transformá-la em prova contra ele é inverter o que se está lendo.

Nenhum dos casos citados foi omitido pela igreja. Todos estão lá porque a própria Escritura os colocou lá, e os colocou com veredicto. O que se apresentou como escândalo é, na verdade, a demonstração narrativa de uma tese: quando o desenho de Gênesis 2 é abandonado, o que sobra é dor, e a Escritura documenta essa dor com um realismo que nenhuma outra literatura religiosa antiga teve coragem de assumir.

E quando alguém pergunta se a Bíblia tem um modelo de família, a resposta não precisa vir de nós. Ela já foi dada, por Jesus, diante de uma pergunta capciosa muito parecida com esta: "no princípio não foi assim" (Mt 19.8).

Referências

FEE, Gordon D.; STUART, Douglas. Entendes o que lês? Um guia para entender a Bíblia com auxílio da exegese e da hermenêutica. São Paulo: Vida Nova.

HAMILTON, Victor P. The Book of Genesis: Chapters 1-17. New International Commentary on the Old Testament. Grand Rapids: Eerdmans, 1990.

INSTONE-BREWER, David. Divorce and Remarriage in the Bible: The Social and Literary Context. Grand Rapids: Eerdmans, 2002.

KARNAL, Leandro. Família tradicional. Tradicional onde? Instagram: @leandro_karnal. [S. l.], 24 ago. 2026. Disponível em: https://www.instagram.com/p/DcYrRUDOyKU/?hl=pt-br. Acesso em: 24 ago. 2026.

KÖSTENBERGER, Andreas J.; JONES, David W. God, Marriage, and Family: Rebuilding the Biblical Foundation. 2. ed. Wheaton: Crossway, 2010.

OSBORNE, Grant R. A espiral hermenêutica: uma nova abordagem à interpretação bíblica. São Paulo: Vida Nova.

PROVAN, Iain W. 1 and 2 Kings. New International Biblical Commentary. Peabody: Hendrickson, 1995.

WENHAM, Gordon J. Genesis 1-15. Word Biblical Commentary, v. 1. Waco: Word Books, 1987.

Contato

Fale conosco para sugestões ou dúvidas

E-MAIL: mesateologica2026@gmail.com

Telefone: +55 65 9 9298 4702

© 2026. Todos os direitos Reservados à Mesa Teológica

Youtube/Mesa Teológica