A Desconstrução do Homem: Como o Brasil Está Perdendo a Masculinidade Cristã e o Que a Bíblia Tem a Dizer Sobre Isso

A cultura contemporânea tem sistematicamente atacado a identidade masculina. No Brasil, esse processo é acelerado por uma agenda ideológica que confunde dignidade com apagamento. Mas a Bíblia nunca pediu que o homem pedisse desculpa por existir.

ARTIGOS

Wender Gabriel

3/29/20265 min read

Existe uma cena que se tornou símbolo do nosso tempo: homens jovens, em universidades, manifestações e redes sociais, pedindo desculpa por serem homens. Não por algo que fizeram. Pela simples condição de existirem como homens.

Se você acha que isso é exagero, pesquise. É real. E está chegando às igrejas.

Um Panorama Global

O ataque à masculinidade não é um fenômeno exclusivamente brasileiro ele tem raízes em décadas de transformação cultural no Ocidente. A partir da segunda metade do século XX, movimentos feministas legítimos, que combatiam opressões reais, foram progressivamente substituídos por uma vertente mais radical que não busca apenas a igualdade de direitos, mas a desconstrução da diferença entre os sexos.

O filósofo inglês Roger Scruton advertiu décadas atrás que a cultura ocidental estava cometendo o erro de confundir a eliminação de privilégios injustos com a eliminação da própria distinção entre masculino e feminino. O resultado, ele previu, seria uma sociedade desorientada e o que vemos hoje confirma sua previsão.

O psicólogo canadense Jordan Peterson, ao analisar o fenômeno do colapso masculino no Ocidente, documentou que homens especialmente jovens estão perdendo propósito, direção e identidade em ritmo alarmante. As taxas de suicídio masculino são consistentemente mais altas do que as femininas em praticamente todos os países ocidentais. Homens estão abandonando a universidade em proporções crescentes. O casamento e a paternidade estão sendo descartados por gerações inteiras de jovens que não sabem mais o que significa ser homem.

O Brasil e a Agenda Woke

No Brasil, esse processo ganhou velocidade nas últimas décadas. A introdução da chamada "ideologia de gênero" nos currículos escolares, o crescimento de uma mídia que sistematicamente retrata o homem como vilão, incompetente ou desnecessário, e a expansão de um feminismo militante que confunde machismo real com masculinidade saudável tudo isso tem produzido uma geração de homens confusos, passivos e sem referências.

O sociólogo brasileiro Jessé Souza analisou como a cultura do ressentimento se instala nas sociedades periféricas e o Brasil é terreno fértil para isso. A narrativa de que todo problema social tem como causa o "patriarcado" e o homem como opressor estrutural permeia hoje as universidades, os meios de comunicação e, cada vez mais, as próprias igrejas.

O resultado visível é o surgimento de um fenômeno inédito: homens que se desculpam por ser homens. Que renunciam à liderança por medo de parecerem autoritários. Que abandonam a paternidade por medo de serem chamados de machistas. Que calam sua voz por medo de serem cancelados.

A Lei da Misoginia: Um Caso Para Reflexão

Na última semana, o Senado Federal aprovou o PL 896/2023, que criminaliza a misoginia e a equipara ao racismo, com penas de 2 a 5 anos de reclusão. O projeto foi aprovado por 67 votos a favor e nenhum contra.

É necessário dizer com clareza: o ódio às mulheres é real, é pecaminoso e merece ser combatido. A violência contra a mulher incluindo o feminicídio é uma chaga que envergonha nossa sociedade. Isso não está em debate.

O que merece reflexão teológica e cívica honesta é outra questão: a extensão e aplicação dessa lei em um país com instituições frágeis, poder judiciário politizado e cultura de cancelamento consolidada.

Quando uma lei criminaliza condutas vagas como "discriminação por razões misóginas" sem definições precisas, cria-se um instrumento que pode ser usado de forma seletiva. O pastor que prega a complementaridade entre homem e mulher baseado em Efésios 5 pode, em tese, ser enquadrado. O pai que ensina o filho que masculinidade e feminilidade são realidades criadas por Deus pode virar réu.

Há também uma consequência prática que poucos têm coragem de nomear: em um ambiente de risco jurídico crescente, muitos homens simplesmente recuarão ainda mais dos relacionamentos. O homem que já está confuso sobre seu papel na sociedade, ao perceber que qualquer passo em falso pode resultar em processo criminal, optará pela inércia. E quem pagará esse preço serão as próprias mulheres que desejarão relacionamentos saudáveis e encontrarão homens cada vez mais retraídos e medrosos.

Não é misoginia dizer isso. É consequência lógica de uma legislação ampla em um contexto cultural já deteriorado.

A Masculinidade Cristã: O Que a Bíblia Realmente Diz

Em meio a esse cenário, a Igreja tem uma palavra insubstituível mas precisa tê-la de fato, com clareza e sem vergonha.

A Bíblia apresenta uma visão de masculinidade que não é nem o machismo opressor nem o homem desmontado pela cultura woke. É algo muito mais rico e exigente do que qualquer uma dessas caricaturas.

Deus criou o homem para liderar com serviço. Em Efésios 5.25, Paulo instrui os maridos a amarem suas esposas "como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela." A liderança bíblica não é domínio é entrega. É o homem que dá a vida, não o que tira.

O homem bíblico é forte e emocionalmente presente. Jesus chorou diante do túmulo de Lázaro (João 11.35). Davi escreveu salmos de dor e arrependimento. Paulo confessou suas fraquezas em 2 Coríntios 12. Força bíblica não é ausência de emoção é emoção governada por caráter.

O homem bíblico é provedor e protetor. 1 Timóteo 5.8 é explícito: "Se alguém não cuida dos seus, especialmente dos da própria casa, negou a fé e é pior do que o descrente." Prover não é exploração é vocação.

O homem bíblico teme a Deus, não os homens. Provérbios 28.1 diz que "o justo é ousado como leão." A masculinidade cristã não se retrai diante da cultura ela se posiciona com mansidão e firmeza, como fez Paulo diante do Areópago (Atos 17) e Pedro diante do Sinédrio (Atos 4).

O Que as Igrejas Precisam Fazer

A Igreja Evangélica brasileira enfrenta uma pressão crescente para se adaptar ao zeitgeist ao espírito da época. Essa pressão vem de fora, mas também de dentro: pastores que evitam pregar sobre masculinidade e feminilidade com medo de polêmica, líderes que suavizam textos bíblicos para não ofender sensibilidades contemporâneas.

Mas o homem que não encontra na Igreja uma visão robusta e bíblica de masculinidade vai buscá-la em outro lugar. E os outros lugares que estão oferecendo essa visão sejam os grupos de masculinidade secular, seja o catolicismo tradicional, seja o movimento red pill podem não oferecer o que a Escritura oferece.

A resposta não é retreinamento ideológico. É pregação fiel. É discipulado masculino. É a formação de homens que amam suas esposas como Cristo amou a Igreja, que lideram com serviço, que proveem com alegria, que protegem com sacrifício e que não pedem desculpa por nada disso.

Juntos à Mesa refletimos que:

O homem que Deus criou não é o patriarca opressor que a cultura woke caricatura. Tampouco é o ser frágil, passivo e sem propósito que essa mesma cultura quer produzir.

É o homem de Miquéias 6.8: que pratica a justiça, ama a misericórdia e anda humildemente com o seu Deus. Forte o suficiente para servir. Humilde o suficiente para obedecer. Corajoso o suficiente para não se desculpar por aquilo que Deus fez.

"Vigilai, estai firmes na fé, portai-vos varonilmente, sede fortes." 1 Coríntios 16.13

Fontes:

  • Senado Federal — PL 896/2023 — senado.leg.br

  • Agência Brasil — "Senado aprova projeto de lei que criminaliza a misoginia" — agenciabrasil.ebc.com.br

  • Roger Scruton — The West and the Rest (2002)

  • Jordan Peterson — 12 Rules for Life (2018)

  • Jessé Souza — A Elite do Atraso (2017)

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