A Bíblia tem um modelo de família?

O que a Escritura descreve, o que ela prescreve e por que a diferença muda tudo

ARTIGOS

Wender Gabriel

8/29/20267 min read

Imagem por Palestrart-Palestrante: Leandro Karnal

Em entrevista ao podcast Platitudes, o historiador Leandro Karnal retomou uma tese que circula com força nas redes: a de que não existe nas Escrituras um modelo de família tradicional. O argumento vem bem montado, como costuma vir quando ele o formula. Os patriarcas eram polígamos, Abraão gerou filho com a serva da esposa, Jacó teve quatro mulheres, Davi e Salomão mantiveram haréns, e o próprio Jesus, segundo ele, teria tido dois pais.

Karnal fala de um lugar definido, e é justo reconhecê-lo antes de discordar. Ele é doutor em História pela USP, lecionou por décadas na Unicamp, dedicou boa parte da obra ao estudo da religião como fenômeno histórico e se declara ateu. Isso significa que ele examina o cristianismo de fora, como objeto de análise, não como revelação recebida. E não há nada de ilegítimo nisso. Apenas define o alcance daquilo que ele pode afirmar. O historiador tem instrumento para descrever o que Israel praticou. Ele não tem, por método, instrumento para decidir o que o texto sagrado prescreve, porque isso exigiria tratar a Escritura como norma, e tratar a Escritura como norma é justamente o que a postura dele exclui de saída.

É aí que a tese trinca. O levantamento dos dados está quase todo correto. O problema não está nos fatos citados, está na regra de leitura aplicada a eles.

Não é a primeira vez que a Mesa examina uma leitura assim. Já respondemos aqui à tese de que o Jesus histórico e o Cristo da fé seriam duas figuras distintas, quando ela foi defendida por Luiz Felipe Pondé em sua coluna na Folha de São Paulo. O padrão argumentativo é o mesmo, mudando apenas o assunto: parte-se de um dado histórico verdadeiro para desqualificar uma afirmação teológica que aquele dado nunca teve competência para julgar.

O erro de método: confundir narrativa com norma

O primeiro e maior equívoco é hermenêutico, não histórico. A Escritura narra muita coisa que não aprova. A narrativa bíblica é descritiva antes de ser prescritiva, e o gênero literário exige que o leitor pergunte não apenas "o que aconteceu?", mas "como o texto avalia o que aconteceu?".

E a avaliação da poligamia no Antigo Testamento é uniformemente negativa. Não por um discurso moralizante explícito, que não é o estilo da literatura hebraica, mas pela consequência narrada. Abraão toma Agar e o resultado é rivalidade, expulsão e trauma familiar que atravessa milênios. Jacó tem duas esposas e duas servas e colhe inveja entre irmãs, filhos disputando afeto e um clã que quase se destrói vendendo José. Davi multiplica mulheres e a casa dele produz estupro, fratricídio e golpe de Estado. Salomão acumula setecentas esposas, e 1 Reis 11 diz literalmente que elas lhe perverteram o coração. A lei ainda antecipa o problema em Deuteronômio 17.17, proibindo ao rei multiplicar mulheres.

Quem lê a poligamia bíblica como modelo alternativo de família está lendo o relato de um desastre como se fosse catálogo de opções.

A norma existe, e Jesus a identifica

Se a Bíblia não tivesse norma sobre isso, Jesus não teria conseguido apelar a ela. Mas foi exatamente o que Ele fez.

Em Mateus 19.3 a 6, diante de uma pergunta sobre divórcio, Jesus não responde citando o costume do primeiro século nem a prática dos patriarcas. Ele volta ao princípio: "não lestes que o Criador, desde o princípio, os fez homem e mulher?". E cita Gênesis 2.24, o texto do deixar, unir e tornar-se uma só carne. A conclusão dele é normativa e exclusiva: "portanto, não separe o homem o que Deus ajuntou".

Repare no movimento. Jesus reconhece que a prática histórica de Israel divergiu do padrão e explica por quê: "por causa da dureza do vosso coração vos permitiu Moisés repudiar vossas mulheres; entretanto, não foi assim desde o princípio". Ou seja, o próprio Jesus distingue o que foi tolerado no regime da lei daquilo que foi instituído na criação. Essa distinção é a resposta bíblica antecipada ao argumento de que não há modelo. Há modelo, e ele é anterior à queda, à lei e à cultura do Antigo Oriente Próximo.

Paulo faz o mesmo em Efésios 5.31, aplicando Gênesis 2.24 à relação entre Cristo e a Igreja. O casamento monogâmico entre homem e mulher deixa de ser apenas ordenança social e passa a ser sinal teológico.

O que muda de fato: a casa antiga não era a casa moderna

Aqui é preciso conceder algo, e conceder com honestidade fortalece o argumento em vez de enfraquecê-lo.

A família israelita não era o núcleo de pai, mãe e dois filhos das propagandas de margarina. Era a bet av, a casa do pai, uma unidade doméstica multigeracional que podia reunir avós, filhos casados, netos, servos, agregados e estrangeiros residentes, organizada em torno da terra e do clã. Perdue e os estudos reunidos por Hess e Carroll documentam isso com clareza.

Mas note a diferença entre duas coisas que o argumento popular funde: a amplitude da unidade doméstica e a definição da união conjugal. A casa bíblica era muito maior que a família nuclear moderna. Isso é verdade. O que nunca variou dentro dela foi o que constitui o vínculo conjugal: um homem e uma mulher, em aliança pública, exclusiva e permanente. Dizer que a casa antiga era ampla não prova que o casamento era plástico. São perguntas distintas, e responder uma no lugar da outra é troca de assunto, não descoberta.

E os dois pais de Jesus?

O argumento dos dois pais soa espirituoso, mas colapsa assim que se pergunta em que sentido cada palavra está sendo usada.

José não é apresentado nos Evangelhos como segundo genitor. Mateus faz questão de romper a fórmula genealógica exatamente no versículo 16: em vez de dizer que José gerou Jesus, diz que José era o marido de Maria, da qual nasceu Jesus. A paternidade de José é legal e adotiva, e é justamente por isso que ela importa. É por meio dela que Jesus entra juridicamente na linhagem davídica, cumprindo a promessa messiânica. Quando o anjo diz a José "filho de Davi, não temas receber Maria", está lhe pedindo que exerça uma paternidade de aliança, não de biologia.

Já a paternidade do Pai é ontológica e eterna, própria da segunda pessoa da Trindade. Não é um segundo pai no mesmo plano do primeiro. É categoria inteiramente distinta.

Portanto não há dois pais no sentido que o argumento precisa que haja. Há um Filho eterno de Deus que recebe, na encarnação, um pai adotivo humano. Longe de relativizar a família, esse é o texto que mais dignifica a paternidade social e adotiva em toda a Escritura: Deus confiou seu Filho aos cuidados de um homem que não o gerou. Isso é altíssima teologia da paternidade, não dissolução do conceito de família.

E quando Jesus parece atacar a família?

Ainda aparece o texto de Lucas 14.26, sobre aborrecer pai e mãe, e o de Marcos 3.33, quando Jesus pergunta quem são sua mãe e seus irmãos. São usados como prova de que Jesus não valorizava a família natural.

Mas o hebraísmo de Lucas 14 é comparativo, não literal, e o paralelo de Mateus 10.37 traduz a força do idioma: quem ama pai ou mãe mais do que a mim não é digno de mim. O ponto é prioridade, não ódio. E em Marcos 3 Jesus não abole a família biológica, Ele expande o parentesco em direção à família da fé, sem negar a primeira. Prova disso é que o mesmo Jesus repreende duramente os que anulavam o quinto mandamento com o expediente do corbã, em Marcos 7.9 a 13, e é o mesmo que, agonizando na cruz, providencia o cuidado da mãe em João 19.26.

Quem relativiza a família não organiza o sustento da própria mãe enquanto morre.

Juntos à Mesa refletimos que:

A afirmação de que a Bíblia não conhece um modelo de família só se sustenta enquanto o leitor não distinguir descrição de prescrição. Feita a distinção, o quadro se inverte: a Escritura descreve muitos arranjos porque narra a história de gente real e caída, e prescreve um só porque remonta à criação. A poligamia dos patriarcas não é a norma bíblica, é o retrato do que acontece quando a norma é ignorada. E o Cristo que teve um pai adotivo é o mesmo que apontou para o princípio e disse que não foi assim desde o princípio.

Defender a família não é defender um modelo burguês do século XIX. É concordar com Jesus sobre Gênesis. E aqui está o ponto que nenhum historiador resolve de fora: se Jesus disse que não foi assim desde o princípio, a discussão deixa de ser sobre o que Israel praticou e passa a ser sobre em quem confiamos para interpretar o que Israel praticou.

Referências

BLOMBERG, Craig L. Matthew. Nashville: Broadman & Holman, 1992. (The New American Commentary, v. 22).

HESS, Richard S.; CARROLL R., M. Daniel (org.). Family in the Bible: exploring customs, culture, and context. Grand Rapids: Baker Academic, 2003.

INSTONE-BREWER, David. Divorce and remarriage in the Bible: the social and literary context. Grand Rapids: Eerdmans, 2002.

KELLER, Timothy; KELLER, Kathy. O significado do casamento. São Paulo: Vida Nova, 2012.

KÖSTENBERGER, Andreas J.; JONES, David W. God, marriage, and family: rebuilding the biblical foundation. 2. ed. Wheaton: Crossway, 2010.

PERDUE, Leo G.; BLENKINSOPP, Joseph; COLLINS, John J.; MEYERS, Carol L. Families in ancient Israel. Louisville: Westminster John Knox, 1997.

KARNAL, Leandro. Família tradicional. Tradicional onde? Instagram: @leandro_karnal. [S. l.], 24 ago. 2026. Disponível em: [https://www.instagram.com/p/DcYrRUDOyKU/?hl=pt-br]. Acesso em: 24 ago. 2026.

A afirmação analisada foi publicada por Leandro Karnal em seu perfil no Instagram (@leandro_karnal), em [24/08/26], como legenda de trecho do podcast Platitudes, que ele apresenta ao lado de Gabriela Prioli.

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