36% e Crescendo: O Brasil Evangélico Que Ninguém Sabe o Que Fazer

Os evangélicos nunca foram tantos no Brasil. Políticos os cortejam, pesquisadores os analisam e o mundo os observa. Mas a pergunta que a Mesa Teológica precisa fazer é outra: o que Deus espera de nós com tudo isso?

BOLETIM DA MESA

Wender Gabriel

4/1/20262 min read

people raising their hands during night time
people raising their hands during night time

Um número está circulando nas análises políticas, nas redações dos jornais e nas salas de estratégia dos partidos brasileiros: 36%. Até 2026, os evangélicos representarão 36% da população brasileira, um crescimento expressivo em relação aos 32% de 2022 e aos apenas 22% registrados em 2010. Gazeta do Povo Em pouco mais de uma década, o segmento evangélico saltou de menos de um quarto para mais de um terço da população do país. E os números não param por aí.

A pesquisa analisou dados do IBGE, da Receita Federal e do Congresso Nacional, cruzando informações com institutos como o Datafolha e o Pew Research Center. O levantamento concluiu que, se a tendência continuar, os evangélicos devem ultrapassar os católicos como maior grupo religioso do Brasil por volta de 2032. O crescimento é mais acentuado entre os jovens de 15 a 29 anos, moradores de regiões periféricas dos grandes centros urbanos, nas regiões Norte e Centro-Oeste, entre mulheres e nas classes C e D. Aleteia

O número de igrejas evangélicas com CNPJ ativo dobrou na última década, chegando a mais de 140 mil templos, com uma média de 5 mil novas aberturas por ano. Instituto Humanitas Unisinos Para se ter uma noção do que isso representa, é uma nova igreja sendo aberta a cada duas horas, todos os dias, durante dez anos seguidos.

Diante desse cenário, os políticos já entenderam o recado. Candidatos ajustam discursos, partidos disputam pastores, verbas públicas são destinadas a eventos cristãos e pautas ligadas a valores conservadores ocupam cada vez mais espaço no debate nacional. O eleitorado evangélico tornou-se o bem mais disputado da política brasileira.

Mas aqui a Mesa Teológica precisa fazer uma pausa e formular a pergunta que ninguém está fazendo: crescer em número é o mesmo que crescer em Cristo?

Ser 36% da população não é, em si, uma vitória espiritual. É uma responsabilidade colossal. Cada templo aberto é uma promessa feita a Deus e à comunidade ao redor. Cada novo convertido é uma vida que precisa ser discipulada, ensinada e formada na fé. O perigo que se apresenta não é o de ter influência, mas o de usar essa influência para os fins errados, confundindo poder político com missão do Evangelho, e bancada parlamentar com Reino de Deus.

O profeta Amós viveu em um tempo de prosperidade e crescimento para Israel. O povo enchia os santuários, oferecia sacrifícios e celebrava festas religiosas. E Deus disse: "Aborreço e desprezo as vossas festas, e não me comprazo nas vossas assembleias solenes" (Am 5.21). O problema não era o crescimento. Era o que estava sendo feito com ele.

A influência evangélica se acentua nas redes sociais, na música, em eventos, no consumo de conteúdo cristão e no Congresso Nacional. Aleteia Isso é real e inegável. Mas influência cultural e política sem profundidade teológica e ética é, no longo prazo, mais perigosa do que a ausência de influência. Uma Igreja numerosa que não discipula, que não ensina a Palavra, que não vive o Evangelho no cotidiano, pode muito bem ser, como disse Jesus, sal que perdeu o sabor: não serve para nada, a não ser para ser pisado pelos homens.

O Brasil evangélico chegou a um momento decisivo. O mundo nos observa. Deus também. E a pergunta que ecoa não é "quantos somos?" mas "o que fazemos com isso?"

"Porque a quem muito foi dado, muito será exigido." (Lc 12.48)

Imagem de NATHAN MULLET - Unsplash